06 Novembro, 2012

Educação na Finlândia e em Portugal: comparar alhos com bugalhos. Acrescentado

Volta e meia surgem nos media artigos e reportagens sobre as virtudes do sistema educativo finlandês. Quase sempre o sistema finlandês é apresentado como o modelo a seguir por Portugal. Quem diz que não é, como é o meu caso, é trucidado. Explico mais uma vez por que razão o sistema finlandês não serve para Portugal.

#1 São realidades completamente diferentes. O que faz o sucesso do sistema educativo finlandês - 1º em Ciências e 2º em Matemática no PISA - é o contexto cultural da sociedade finlandesa. 82,5% dos finlandeses são luteranos e isso faz toda a diferença. A cultura e a ética protestante assentam na responsabilidade individual e no cumprimento das obrigações e deveres. Exatamente o contrário da ética católica comunitarista preponderante nos países do Sul da Europa. Estudar é um dever e uma obrigação na Finlândia. E os alunos finlandeses não desperdiçam o tempo na vadiagem como acontece com demasiada frequência em Portugal. Os pais finlandeses respeitam os professores e não se colocam contra eles como acontece com demasiada frequência em Portugal.

#2. A percentagem de pobres na Finlândia está muito próxima do zero. Em Portugal atinge um quarto da população e é particularmente severa com as crianças e os jovens. Na Finlândia existe uma classe média letrada muito forte com elevadas expetativas educacionais.

#3. A sociedade finlandesa é fortemente monocultural: a Finlândia é habitada por 93,4% de finlandeses puros, 5,6% de origem sueca, 0,5% de origem russa e 0,3% de origem estónia. Os finlandeses de origem cigana são menos de 0,1%. O finlandês é a língua materna de mais de 99% dos finlandeses. Os restantes falam russo e finlandês. Há uma percentagem muito grande de finlandeses que falam fluentemente finlandês e sueco. A sociedade portuguesa é crescentemente pluricultural e há um número considerável de portugueses ou residentes em Portugal que não falam o Português ou exprimem-se em Português com muitas dificuldades. Além disso, há um número crescente de jovens portugueses que chegam ao ensino secundário sem falarem nem escreverem fluentemente em Português. E de inglês nada sabem. Na Finlândia, quase todos os jovens falam fluentemente o finlandês e o inglês.

#4. A taxa de abandono escolar após o 9º ano é, na Finlândia, de apenas 6%; em Portugal é de 23,2%. E 85,1% dos finlandeses concluem o ensino secundário enquanto apenas 55,5% dos portugueses o fazem. A taxa de alfabetização na Finlândia é de 100% desde os primórdios do século XX. Mais de 10% da população adulta portuguesa é analfabeta. Há quarenta anos atrás, a percentagem de portugueses analfabetos era de 20%.

#5. O clima ajuda também a perceber as diferenças das atitudes dos alunos face ao estudo. Na Finlândia, o Inverno rigoroso dura quase 9 meses. Em muitas regiões da Finlândia, é difícil andar na rua durante o longo Inverno. Metidos em casa, os alunos finlandeses tendem a aproveitar melhor o tempo disponível dedicando-se ao estudo. Em Portugal é exatamente o contrário. O longo Verão e o tempo temperado ao longo de pelo menos 9 meses por ano convida os alunos a andarem na rua. Vadiar sempre foi uma atividade muito estimada pelas populações dos países mediterrânicos. Era até considerada uma atividade nobre na Grécia Antiga. Muitos dos nossos alunos dedicam demasiado tempo à  vadiagem.

#6. A Finlândia tem um PIB per capita de 36,700 USD. Portugal fica-se por 23,700 USD. O PIB português não cresce há doze anos. O PIB finlandês cresceu 2,9% em 2011. A taxa de desemprego na Finlândia foi de 7,8% em 2011; em Portugal, foi de 15%.

#7. A Finlândia atrai os melhores alunos do secundário para a frequência de cursos de formação de professores; em Portugal, os cursos de formação de professores atraem quase só os alunos com classificações mais baixas do ensino secundário. O baixo nível intelectual e cultural de alguns jovens docentes portugueses é fruto da ausência de seletividade no acesso aos cursos de formação inicial de professores. A oferta é muito superior à procura.

#8. Os professores finlandeses não perdem tempo nem energia a controlar e a disciplinar os alunos; os professores portugueses queixam-se de que perdem uma grande parte do tempo a controlar e a disciplinar os alunos. As escolas portuguesas sofrem de um grave e endémico problema de indisciplina. A alocação de tempo à gestão dos conflitos entre alunos resulta em perda de tempo útil para ensinar.

Nota: os dados foram obtidos a partir da Cia World Book of Facts

6 comentários:

  1. Trabalhei com colegas finlandeses no programa Comenius e não constatei nada disto. Os cinco profs que cá vieram falavam muito mal inglês, muito pior que os alemães ou polacos e o ensino deles era rudimentar, os trabalhos muito menos elaborados dos que os outros grupos. Bem sei que este profs eram de áreas diferentes, mas mesmo assim, aquela ideia de que eles fazem tudo bem, é errónea. Para mim o melhor sistema de ensino é o alemão, que tem pluralidade de escolhas e integra milhões de estrangeiros no seu seio.
    O nosso ensino poderia ser muito melhor, se houvesse disciplina e se os professores tivessem tempo livre para descansar. Passam o dia todo na escola sem proveito para ninguém.

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  2. Fred,

    Se é possível mudar a sociedade e a mentalidade, porque é que não se dá a mudança? Por falta de conhecimento e de cultura dos próprios agentes da mudança? Por falta de vontade dos educadores? Por preguiça, teimosia e rebeldia dos educandos?

    Estudaste História das Mentalidades?
    Se sim, então sabes que não há mudança mais lenta e que são precisas gerações para alterar a perspectiva das coisas.

    Se mudar uma mentalidade é difícil, mudar 9 milhões é uma tarefa hercúlea, mas não impossível.

    Só me resta dizer que tu desconheces o país onde vives há mais de 20 anos.

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  3. Virgínia:

    "Passam o dia todo na escola sem proveito para ninguém."

    É verdade. E a torrar os miolos com problemas de indisciplina.

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  4. Continua a censurar, continua, que vais ver o alho a mexer.

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  5. Oito # de sofismas baratos. E depois não tem arcaboiço para levar com crítica em cima e, tique antigo, apaga comentários incomodativos. Espelhas bem esta política de estafermo que nos começa a incendiar a paciência.
    À custa do dual precoce (ainda não perderam o sabor de carne tenra e fresca das orgias de Salazar), o parvo ainda vai ver a sua rica política educativa num tribunal dos direitos da criança.

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  6. O «dual ninfeta», vai ser a marca de perversidade da política educativa do Crato e dos seus maus conselheiros.

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