Sem farinha de qualidade não se faz bom pão
O post "Mudar de Linguagem" suscitou um comentário de António Pereira que levanta dúvidas e problemas sobre as razões que explicam a excelência da Ciência que se está a fazer em Portugal.
António Pereira argumenta:
E a maior parte destes investigadores de ponta que temos até estudou no ensino público (quer básico e secundário quer universitário), basta ler as entrevistas que dão onde falam disso. Nem todos, a maioria mesmo, não investigam em centros privados.
Por sua vez, o colega que assina como Precário argumenta:
Alguns (poucos), talvez [fazem parte dos 3% de excelentes]. Outros, tiveram a sensatez de ir estudar lá para fora, Inlaterra ou Estados Unidos, onde existe Ensino Superior a sério. O que os trouxe de volta a este fim de mundo? Mistérios insondáveis.
Têm ambos razão. A maioria dos investigadores que receberam prémios e bolsas científicas de prestígio estudaram em escolas secundárias públicas. Esse facto não desmente a minha tese: as escolas públicas são muito desiguais; há escolas de grande qualidade ao lado de outras muito fracas. Há estudantes que frequentam escolas fracas que complementam a formação com explicações e apoios em casa que fazem toda a diferença. Quando falamos de investigação científica de excelência estamos a fazer referência às áreas da biomedicina, bioquímica, neurociências e microbiologia. Esses investigadores foram todos alunos excelentes no ensino secundário. Não vêm nem do ensino técnico-profissional nem da área de Desporto. Entraram no ensino superior com notas muito elevadas. São a elite dos 3% de que fala o Rantanplan.
Há ainda outro fator explicativo: os institutos de investigação na área da biomedicina, neurociências e bioquímica têm uma política de recrutamento de investigadores que assenta na internacionalização. Cerca de metade dos investigadores que trabalham na Fundação Champalimaud e no Instituto Gulbenkian de Ciência são estrangeiros. Vão buscar os melhores onde quer que eles estejam sem preocupação com a nacionalidade. Isso também faz toda a diferença. Uma boa parte dos portugueses fizeram os doutoramentos ou os pós-doutoramentos em universidades estrangeiras de excelência. Por último, nos institutos de investigação científica privados não há endogamia. Isso também faz toda a diferença.
Como bem diz o Rio D`Oiro:
Desculpem lá, mas esta coisa da excelência no deserto parece-se cada vez mais com a excelência das esculturas na ilha de Páscoa. Estão lá os obliscos mas, onde está a malta?
A malta são os que ficam pelo caminho, os 40% que não concluem o ensino secundário, os que entram em cursos superiores com média de 10 valores, os que vegetam nos Cef e nos Efa, os que não estudam nem trabalham.
Diz o António Pereira que a maioria dos cientistas premiados trabalha em universidades públicas. De acordo. Mas muitos investigam em institutos privados como o Instituto Gulbenkian de Ciência e a Fundação Champalimaud. Há uma diferença entre fazer Ciência em institutos privados e fazer Ciência numa universidade pública. Em ambos os lados se faz ciência de excelência nas áreas da biomedicina, neurociências e bioquímica. A diferença é que os institutos de investigação científica privados não dependem do Orçamento de Estado. Os chefes das equipas de investigação têm mais necessidade de concorrerem a financiamentos internacionais porque o dinheiro que recebem da FCT é muito pouco para cobrir as despesas.
E há outra diferença: logo que os investigadores que trabalham em universidades públicas ganham vínculo permanente ao Estado, ficam seguros, têm emprego para toda a vida. Os cientistas que trabalham em institutos de investigação privados têm de fazer prova todos os dias de que merecem o salário que ganham. Não têm garantia de trabalho para toda a vida. Hoje estão em Portugal, amanhã podem ter de ir para os EUA, Alemanha ou Grã Bretanha.
Podemos ter uma noção do investimento feito por Portugal, na última década, em investigação científica, olhando para estes números:
Ano 2000: 797 bolsas de doutoramento; 2009: 1831. Fonte: Pordata. Ano 2000: realizaram-se 859 doutoramentos em Portugal, incluindo reconhecimentos de PHD tirados em universidades estrangeiras; em 2009 realizaram-se 1569. Fonte: Pordata
Ano 1990: o investimento em Educação foi de 3,8% do PIB; em 2000, subiu para 5,1% do PIB; em 2010, manteve-se nos 5,1% do PIB. Fonte: Pordata. O investimento em investigação científica duplicou na última década e atingiu os 1,71% do PIB em 2009 o que consistiu num investimento de 2791 milhões de euros. Em 2005, foi de apenas 0,81% do PIB. Em relação à população activa, o número de cientistas passou de 7,2 para 8,2 por cada mil pessoas. Este número é, contudo, enganador porque inclui a quase totalidade dos docentes do ensino superior que acumulam as atividades docentes com a participação em projetos de centros de investigação.
P.S. Dada a importância do tema, voltarei ao assunto ainda hoje.
Diz o António Pereira que a maioria dos cientistas premiados trabalha em universidades públicas. De acordo. Mas muitos investigam em institutos privados como o Instituto Gulbenkian de Ciência e a Fundação Champalimaud. Há uma diferença entre fazer Ciência em institutos privados e fazer Ciência numa universidade pública. Em ambos os lados se faz ciência de excelência nas áreas da biomedicina, neurociências e bioquímica. A diferença é que os institutos de investigação científica privados não dependem do Orçamento de Estado. Os chefes das equipas de investigação têm mais necessidade de concorrerem a financiamentos internacionais porque o dinheiro que recebem da FCT é muito pouco para cobrir as despesas.
E há outra diferença: logo que os investigadores que trabalham em universidades públicas ganham vínculo permanente ao Estado, ficam seguros, têm emprego para toda a vida. Os cientistas que trabalham em institutos de investigação privados têm de fazer prova todos os dias de que merecem o salário que ganham. Não têm garantia de trabalho para toda a vida. Hoje estão em Portugal, amanhã podem ter de ir para os EUA, Alemanha ou Grã Bretanha.
Podemos ter uma noção do investimento feito por Portugal, na última década, em investigação científica, olhando para estes números:
Ano 2000: 797 bolsas de doutoramento; 2009: 1831. Fonte: Pordata. Ano 2000: realizaram-se 859 doutoramentos em Portugal, incluindo reconhecimentos de PHD tirados em universidades estrangeiras; em 2009 realizaram-se 1569. Fonte: Pordata
Ano 1990: o investimento em Educação foi de 3,8% do PIB; em 2000, subiu para 5,1% do PIB; em 2010, manteve-se nos 5,1% do PIB. Fonte: Pordata. O investimento em investigação científica duplicou na última década e atingiu os 1,71% do PIB em 2009 o que consistiu num investimento de 2791 milhões de euros. Em 2005, foi de apenas 0,81% do PIB. Em relação à população activa, o número de cientistas passou de 7,2 para 8,2 por cada mil pessoas. Este número é, contudo, enganador porque inclui a quase totalidade dos docentes do ensino superior que acumulam as atividades docentes com a participação em projetos de centros de investigação.
P.S. Dada a importância do tema, voltarei ao assunto ainda hoje.
Mesmo num mau sistema educativo como o português, há sempre os que escapam à destruição em massa: pelas suas capacidades e pelo seu trabalho.
Conseguem ser excelentes, apesar do nosso sistema educativo.
Tenho 4 sobrinhas brilhantes. Nem as más escolas, nem os maus colegas as conseguiram abater...
Senhor Prof. Ramiro:
Eu passo por aqui esporadicamente, quando acho que devo deixar um comentário faço-o, como aconteceu ontem.
Ontem fi-lo em termos correctos e com um propósito genuíno de discutir ideias sem preconceitos.
Não usei linguagem ofensiva, fanática ou desbragada (ao contrário do que aqui encontro por parte de alguns – poucos, diga-se – dos comentadores residentes).
O senhor ripostou nos mesmos termos correctos, como também é seu hábito e como eu fizera.
Eu ripostei.
O senhor retirou o seu comentário inexplicavelmente para mim, talvez apenas porque fundamentei o meu ponto de vista com exemplos abundantes (não com convicções pessoais), o que contrariava o seu ponto de vista.
Quer o meu 1.º, quer o 2.º comentários ficaram sem sentido.
Concluo que discussões sérias de pontos de vista (fora da agressão verbal estéril Esquerda / Direita) não interessarão muito?
Não sei?
Gostava que assim não fosse.
Atenção que os 3% a que aludo não é um número inventado por mim. Ouvi-o já por diversas vezes a 3 senhores que acho que têm grande craveira intelectual: António Barreto, Maria Filomena Mónica e Medina Carreira.
...para além de que impiricamente está de acordo com o que observo in loco. Tenho que leccionar 4-5 turmas para ter não mais de 4 alunos dignos desse nome.