Mudar de linguagem. Atualizado
O MEC anda há 20 anos a publicar legislação e documentação focada em conceitos do tipo "igualdade", "equidade", "justiça", "discriminação positiva", "diferenciação", etc. Faz mal.
O resultado do uso dessa linguagem não tem sido grande coisa: os gastos com a Educação não pararam de crescer entre 2000 e 2010 e os resultados dos alunos nos testes internacionais não têm conhecido grandes progressos. Até os mais optimistas reconhecem a timidez da melhoria dos resultados. Países com um custo médio por aluno inferior a Portugal - Singapura, China-Xangai e Coreia do Sul - ficam sistematicamente entre os 5 melhores no PISA. Portugal ou fica aquém do meio da tabela ou a meio da tabela entre os países da OCDE.
Se calhar é tempo de o MEC mudar de linguagem. Num certo sentido, Nuno Crato já introduziu uma nova linguagem nos diplomas e documentos do MEC. Menos retórica eduquesa. Documentos menos palavrosos. Discursos mais realistas e pragmáticos.
A nova linguagem do MEC deve enfatizar os conceitos de "rigor", "esforço", "trabalho árduo", "pontualidade", "resiliência", excelência", "competição" e "concorrência".
Talvez assim os pais e os alunos percebam que andar na escola não é apenas um direito. É também um dever. Como todos os deveres tem uma parte que não é lúdica. Pode ser até custoso. Mas a capacidade de fazer sacrifícios e o gosto pelo esforço aprendem-se com o treino e os bons hábitos. Quanto mais cedo nos habituarmos ao esforço mais fácil é viver com ele pela vida fora. Primeiro, o esforço estranha-se; depois, entranha-se. Os hábitos, quer os bons quer os maus, são a nossa segunda natureza. Uma vez adquiridos, enraízam-se e permanecem. Não é com retórica fofinha, desresponsabilização individual e vitimização que os bons hábitos se adquirem.
Prof. Ramiro:
Não poso estar mais de acordo com a introdução de termos como: «"rigor", "esforço", "trabalho árduo", "pontualidade", "resiliência", excelência", "competição" e "concorrência".»
Sem a perspectiva do esforço pessoal (acompanhada pela perspectiva dos outros actores no processo de aprendizagem se regerem por semelhantes princípios, com vista ao sucesso de cada vez mais alunos) não conseguiremos melhorar e aproximarmo-nos dos países mais evoluídos.
Mas há uma coisa que me intriga: Tendo vindo a nossa Educação a ser cada vez pior pelo menos desde a Reforma Veiga Simão, como é que temos tantos cientistas e outros jovens investigadores qualificados, como nunca tivemos?
E tantos artigos científicos em revistas internacionais de referência, como nunca tivemos?
E tantos prémios internacionais à nossa investigação, como nunca tivemos?
Ainda hoje vi a notícia de que 2 jovens investigadores ganharam duas bolsas de 4 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação, as maiores bolsas a nível europeu.
Desde 2.ª feira passada 10 cientistas portugueses, ou a trabalhar em centros de investigação em Portugal, ganharam mais de 6,6 milhões de euros em prémios e bolsas nas áreas das Ciências da Vida e das Ciências Sociais e Humanidades.
Intrigante não acha?
E onde cabe aqui o Eduquês, que tem dominado o Sistema de Ensino nos últimos 40 anos?
Correcção:
«Não posso estar mais de acordo...»
Prof Ramiro:
Sem farinha não se faz pão. E a maior parte destes investigadores de ponta que temos até estudou no ensino público (quer básico e secundário quer universitário), basta ler as entrevistas que dão onde falam disso.
Nem todos, a maioria mesmo, não investigam em centros privados: Rita Marquilhas (Centro de Linguística - Universidade de Lisboa); Elvira Fortunato (Cenimat / I3N - Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa); Luísa Figueiredo (Instituto de Medicina Molecular - Universidade de Lisboa); Karina Xavier (Instituto de Tecnologia Química e Biológica - Universidade Nova de Lisboa); Adelaide Fernandes (iMed.UL - Faculdade de Farmácia - Universidade de Lisboa); Inês Sousa (Instituto de Medicina Molecular - Universidade de Lisboa), só para citar alguns.
O IST tem ganho tantos projectos de investigação aplicada em Portugal e no estrangeiro que já obtém 64% do orçamento, Só 36% vem do Orçamento do Estado. O ano passado pagou ao Estado 39 milhões de euros de IVA e este ano só vai receber do Orçamento do Estado 37 milhões.
As seguintes empresas: Chipidea; Novabase; YDreams; ALERT Life Sciences Computing; Link Consulting; SISGOG; WIT-Software; ISA- Remote Management Systems; Critical Software; Enabler; WeDO Consulting; Atitude Software, apesar de os nomes serem ingleses são bem portuguesas, saíram, a maior parte, ou estão ainda ligadas, às universidades através dos seus fundadores: alguns são lá professores. Estão todas internacionalizadas, trabalhando, algumas, inclusivamente para a NASA.
Isto não se faz com analfabetos nem com a 4.ª classe, que alguns teimam em considerar valer tanto como hoje o 12.º ano, ou mesmo o curso universitário antigamente, apenas porque os miúdos não sabem a tabuada de cor ou porque usam calculadoras. Isto faz-se com SABER sofisticado.
É evidente que há ainda graves problemas de melhoria da Educação, mas já não estamos na Idade da Pedra Lascada como parece depreender-se da, infelizmente, maioria de comentários que aqui se encontram.
É preciso alguma ponderação no que se diz, confrontar o que se diz com a realidade. Esta é como o algodão: nunca engana.
Mas para fazer esse confronte á preciso conhecer-se a realidade, mas comenta-se muito de cor (ou por outras razões).
Correcção:
«... esse confronto é preciso...»
"Tendo vindo a nossa Educação a ser cada vez pior pelo menos desde a Reforma Veiga Simão, como é que temos tantos cientistas e outros jovens investigadores qualificados, como nunca tivemos?"
Facílimo de explicar. Esses jovens pertencem aos 3% de excelência que o nosso sistema educativo produz. Será por coincidência que esses prémios referidos são quase todos na áreas das ciências da saúde e biomédicas? Claro que não. São só as áreas onde se entra com notas superiores a 16-17. E o sucesso do Técnico é de estranhar? Claro que não. Depois de nos últimos só entrarem alunos com notas superiores a 15-16, mamarem 25-30 disciplinas de física e matemática, não haver complacência para com os medíocres, haver um bom número de desistências é óbvio que o que fica é a excelência. E os milhões de alunos que passaram nos últimos 15 anos pela escola pública e não passam de um zero à esquerda? Esses convém não referir.
...depois de nos últimos anos...
O meu 2.º comentário (não me refiro às 2 correcções) perdeu boa parte do sentido com a retirada (incompreensível para mim) do comentário muito apropriado do senhor Prof. Ramiro em resposta ao meu primeiro.
Quanto ao do senhor Rantanplan, não comento, não vale a pena entrar em grandes contra-argumentações com este senhor.
No entanto, e pela última vez, não responderei mais, deixo apenas uma nota: antes do eduquês ter destruído a nossa escola (e eu nem nego os seus malefícios) nós tínhamos mais do que 3% de gente altamente bem preparada e nunca tivemos o sucesso que hoje temos.
Hoje que a Escola só produz «imbecis», e apenas com 3% dos que escapam à «imbecilidade», conseguimos o que eu ilustrei e muito mais, pois deixei apenas uma pequena amostra.
Enigmas.
Desculpem lá, mas esta coisa da excelência no deserto parece-se cada vez mais com a excelência das esculturas na ilha de Páscoa. Estão lá os obliscos mas, onde está a malta?
Toda essa gente referida, basta fazer contas, entrou na universidade antes do Guterres chegar ao poder, ou pouco depois. Ainda apanharam a escola secundária Cavaquista. A rebaldaria ainda não tinha chegado a Portugal. Mas lá está. Se são todos tão bons porque não sabem ler nem escrever nem contar. Por que não criam empresas a rodos? Por que ganham o salário mínimo? Perguntas retóricas.
"Esses jovens pertencem aos 3% de excelência que o nosso sistema educativo produz."
Alguns (poucos), talvez. Outros, tiveram a sensatez de ir estudar lá para fora, Inlaterra ou Estados Unidos, onde existe Ensino Superior a sério. O que os trouxe de volta a este fim de mundo? Mistérios insondáveis...
Caro Precário
O Prof. Ramiro já respondeu a essa pergunta num outro post: "vêm atrás de um belo par".
Analisando o problema e retirando todos os aspetos secundários, no fundo, o problema é um de mentalidade da sociedade que criámos, onde os valores do ócio e do prazer se sobrepõem aos valores do esforço e do sacrifício.
Se para nós, adultos, o ócio e o prazer são direitos que consideramos adquiridos, como é que haveremos de passar aos nossos filhos o conceito de dever? De esforço e de sacrifício?
Quem não quiser dar aos seus filhos condições melhores do que as que teve, que lance a primeira pedra... O problema volta a estar nos conceitos. O que são «melhores condições»?
Em termos práticos:
1. A maioria das crianças não gosta de aprender, a não ser o que lhes dá prazer;
2. São obrigados a manterem-se nas escolas até ao 9.º ano;
3. Como não se dedicam a aprender, nada os faz aprender;
4. Os professores, mesmo os que aprenderam que dar aulas é convencer os alunos de que o conhecimento é giro, não conseguem fazer nada quando os alunos não querem;
5. E os alunos vão passando, sabendo apenas ler e escrever sem grande profundidade;
6. Como a bitola dos estudos ( superiores incluídos ) foi sendo rebaixada para o nível dos alunos que entram no secundário e depois no superior, o que acontece é que são formadas pessoas para as quais não há, nem procura, nem saída profissional, mas que criaram expectativas com o «canudo» e não estão dispostos a fazer sacrifícios;
7. Qualquer aluno que se esforce, se sacrifique, que estude e tenha professores de qualidade, imediatamente dá nas vistas e consegue um percurso acima da média. Se lhe ganhar o gosto e aprender a procurar a qualidade, tem um futuro garantido.
A questão é: e os outros, pá?
Por todos estes motivos a culpa não é dos jovens, é nossa, de todos, pelos exemplos que demos e pela forma pouco rigorosa como os educámos.
Recorrendo à sabedoria popular, «O que torto nasce, tarde ou nunca se endireita».