Passos Coelho, o contabilista plutocrata. Crónica de Santana Castilho no Público
Nota do editor: têm-me perguntado por que razão publico as crónicas de Santana Castilho se estou nos antípodas das medidas educativas por ele defendidas? Por várias razões: já publicava as crónicas de Santana Castilho quando ele criticava violentamente as políticas de José Sócrates; conheço Santana Castilho há mais de 27 anos e tenho pela obra dele consideração intelectual; Santana Castilho é um comentador que tem muita informação atualizada e fiável sobre educação. Não me revejo nas críticas violentas que ele faz a Nuno Crato e a Pedro Passos Coelho mas considero intelectualmente estimulante a leitura das crónicas dele no Público.
Para Passos Coelho, a Educação é uma inevitabilidade, que não uma necessidade. Ao mesmo tempo que a OCDE nos arruma na cauda dos países com maiores desigualdades sociais, lembrando-nos que só o investimento precoce nas pessoas promove o desenvolvimento das sociedades, Passos Coelho encarregou Crato de recuperar o horizonte de Salazar e de a reduzir a uma lógica melhorada do aprender a ler, escrever e contar. Sob a visão estreita de ambos, estamos hoje com a mais baixa taxa de esforço do país em 37 anos de democracia. É significativo o facto de, em seis páginas e meia de entrevista recentemente concedida a este jornal, Passos Coelho (e, diga-se também, a entrevistadora) terem remetido a Educação para a expressão das suas sensibilidades: o zero absoluto.
Com o passar do tempo e o confronto com as medidas tomadas, clarifica-se o conteúdo ideológico de Passos Coelho e a sua intenção política de desarticular o Estado e entregar à plutocracia o que resta. Os exemplos abundam e são diários. Uns, financeiramente irrelevantes, esmagam moralmente. É o caso do ministro da Economia, que veio voluntariamente para Lisboa mas obteve um subsídio de renda de casa. É legal, mas é imoral. Porque ele próprio censurou e acabou com a possibilidade dos velhos viajarem em comboios vazios, pagando apenas metade do bilhete. Porque os funcionários públicos deslocados para trabalharem no país e os mais de 300 mil emigrantes forçados, recentes, não o têm. Porque para viver bem melhor que os mais de 700 mil desempregados, cujo sofrimento deveria combater com medidas que não toma, não precisa desse subsídio. Porque colegas do Governo, confrontados com a ética mínima, renunciaram a ele. É o caso do ministro, ainda por cima da solidariedade, que foi tomar posse de vespa mas exerce de Audi, de 84 mil euros. E que tem a pouca vergonha de dizer que nada podia fazer, porque o respectivo contrato vinha de trás, bloqueado. São os casos das prebendas crescentes, que recompensam fidelidades servis. Outros, financeiramente gigantes, como o que se segue, passam de fininho por uma opinião pública pouco esclarecida.
Cerca de seis mil milhões de euros serão transferidos dos fundos de pensões da banca para o Estado. Da forma como Passos Coelho referiu publicamente a operação direi, com generosidade, para não lhe chamar mentiroso, com propriedade, que os portugueses foram enganados. Com aquele jeito de bom escuteiro, Passos Coelho afirmou que uma parte dos activos transferidos será usada para pagar as reformas dos bancários, no curto prazo, outra utilizada para capitalizar reservas que as garantam, no futuro, e a terceira, que denominou de excedente, de dois mil milhões de euros, saldará dívidas públicas. Se Passos Coelho falasse verdade, o Estado teria feito um excelente negócio. Mas não falou. Vejamos então a história, despida de manipulação. Não é possível determinar, com rigor, em quanto importa a responsabilidade em análise. Para lá chegar, usam-se modelos de previsão, assentes em pressupostos. Os modelos são falíveis e a história recente das parcerias entre o Estado e os privados mostra como os pressupostos, por norma aceites, são leoninos contra o Estado. Voltou a ser o caso presente. Com a informação disponível, quatro mil milhões de euros (os seis transferidos menos os dois que Passos retira para pagar dividas) são claramente insuficientes para dar sustentabilidade futura à operação. Com efeito, a avaliação actuarial feita terá aceitado a tábua de mortalidade e a taxa de desconto mais desfavoráveis aos interesses do Estado (a avaliação actuarial visa determinar riscos e expectativas, na área dos seguros de vida e fundos de pensões; a tábua de mortalidade permite prever o número de anos em que a pensão será paga; a taxa de desconto relaciona o valor dos fundos a transferir, no momento em que são calculados, com o valor estimado das responsabilidades futuras, sendo certo que quanto mais elevada for a taxa aceite, mais baixo será o valor dos activos a transferir). Assim, este negócio foi, como tem sido a regra, excelente para a banca e ruinoso para o Estado. Os encargos de que os bancos se libertaram significariam responsabilidades futuras muito mais volumosas que os 6 mil milhões que agora cederam (é só seguir estudos internacionais disponíveis e os indicadores adoptados por outros países, que fica reduzida a pó a credibilidade da palavra de Passos Coelho). Gastar já um terço desse pecúlio insuficiente, como se fosse uma receita excedente, além de tremenda irresponsabilidade, patenteia a desonestidade política de quem sempre censurou os comportamentos idênticos do Governo anterior. No futuro, pagarão os contribuintes, por via de mais espoliação despudorada, ou os bancários, por via da diminuição das suas reformas. E quando, lá para Fevereiro de 2012, os milhões forem pagos aos credores do Estado, estes correrão a entregá-los aos seus próprios credores, isto é, à banca. Ficará então fechado o ciclo da plutocracia dominante.
Passos Coelho ainda não entendeu que a sua estrita visão contabilística poderá proteger o país do aguaceiro do presente, mas vai deixá-lo bem mais vulnerável à tempestade do futuro. Nem a escola onde estudou nem a curta experiência de gestão que teve lhe ensinaram que há uma diferença entre o importante e o urgente. Centrou-se no imediato. Abriu-se à plutocracia. É um utilitarista irracional. E não só nos empurra para a penúria, como afirma que esse é o nosso futuro. Se o regime não estivesse podre e a sociedade abúlica, o seu provir seria curto.
(s.castilho@netcabo.pt)
É estimulante,mas não se nota!
Mesmo admitindo a vaga hipótese de haver aqui algum revanchismo politico em virtude SC não ter sido o "escolhido" de PPC para ME deste governo, mesmo assim, dizia, SC está perfeitamente actualizado com a vida que este PPC nos está a obrigar a ter e por isso PPC está a sair melhor do que qualquer encomenda.
E ele não fala so de educação. Fala também, da mesma forma clara, do País que nós deveriamos ser e do que afinal estamos a ser. Aquela coisa dos Fundos de Pensões da Banca/descapitalização da Segurança social é por demais evidente que SC está atento. PPC não conseguiu reduzir a TSU mas conseguiu na mesma descapitalizar a Segurança Social. E claro, como o Estado Social é para ir às malvas, quem for pobre que se lixe, é o que podemos concluir deste belo trabalho de PPC e sus muchachos. Até o MSS que andava de lambreta, já anda de grande AUDI, dos grandes mesmo, claro. Com gente desta estamos feitos ao bife de cabeça chata, as sardinhas, enquanto as houver.
Algum dos comentadores deste blogue tem capacidade para contrapor à excelente explicação de SC sobre o ruinoso negócio que PPC fez com a banca? Obviamente refiro-me ao autor do bloque e ao seu camarada Rantanplan
cumps
Warum ist die Geschichte von 18 Millionen nicht passieren?
O negócio não é mais ruinoso para Portugal que dar centenas e centenas de milhares de reformas a pseudo-idosos, mesmo com penalizações. Quando o país precisa de dinheiro fresco como de pão para a boca não são feitos sempre os melhores negócios. São feitos os possíveis. Com as privatizações vai acontecer a mesma coisa. Com a privatização do BPN aconteceu a mesma coisa. Se eu estivesse cheio de dívidas e precisasse de dinheiro vendia os meus bens ao preço da uva mijona. É a vida.
Entretanto delicie-se com os disparates ditos pelo Sócrates em Paris. Bem revelador do farsolas que Portugal teve como primeiro-ministro durante seis anos, e elegido democraticamente pelo Povo. É precisamente isso que me preocupa. Por isso sou ferverosamente a favor da federalização da europa. Com estes palermas não vamos lá.
Aquela conferência parisiense fez-me arrepiar.As dívidas dos países são eternas e para gerir-disse ele.
Este homem continua a ser odioso.
Quanto ao PPC, lamento muito dizê-lo,tem sido uma desilusão!