Já só faltava isto
| Avenida D. carlos I, junto à Estação de Santos |
O Público dá hoje ênfase a uma notícia preocupante:
Crianças obesas com risco para a saúde podem ser separadas dos pais que não as ajudem a perder peso.
Aquele psicólogo que ocupa grande espaço nos talk shows das televisões e que sussurra quando fala - o Doutor Eduardo Sá - acha bem.
Armando Leandro, Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, não se opõe mas pede prudência e equilíbrio. E adianta: apenas temporariamente e em casos extremos.
O mesmo Estado que promove o sedentarismo das crianças com o conceito de escola a tempo inteiro e com a oferta de computadores a crianças que nem ler sabem vem agora preparar a opinião pública para mais uma intervençãozinha: retirar os filhos obesos aos pais que não são capazes de lhes oferecer cuidados alimentares saudáveis.
Quando os Governos - por via de más políticas - lançam no desemprego 10,6% dos portugueses com idade para trabalhar é no mínimo de mau tom acusar os pais de não serem capazes de evitar a obesidade infantil e juvenil. Esquecem os proponentes desta medida que a obesidade mórbida tem carácter genético e a outra pode ser combatida com refeições escolares saudáveis e o acompanhamento regular de um nutricionista.
Em vez de preparar o terreno para tirar os filhos aos pais, seria mais sensato o Governo providenciar nutricionistas que os acompanhassem numa base regular.
Mas o melhor que o Governo pode fazer para prevenir a obesidade infantil é deixar de dar computadores às crianças, acabar com a escola a tempo inteiro e financiar Actividade de Ocupação dos Tempos Livres ao Ar Livre: aventura e descoberta e convívio com a Natureza.
P.S. Concordo com a ideia de reforçar o número de horas de Educação Física em todos os anos de escolaridade básica e secundária. A este propósito, leia o texto de Miguel Pinto em "Para Saber Mais".
Para saber mais
Obesidade e Estado hipócrita
P.S. Concordo com a ideia de reforçar o número de horas de Educação Física em todos os anos de escolaridade básica e secundária. A este propósito, leia o texto de Miguel Pinto em "Para Saber Mais".
Para saber mais
Obesidade e Estado hipócrita
A loucura continua à solta.
Completamente. O estado policial avança perante a passividade e alienação dos portugueses.
Respeito o teu gosto particular pelas Actividades de Ocupação dos Tempos Livres ao Ar Livre: aventura e descoberta e convívio com a Natureza. É, no entanto, muito redutor associar este tipo de actividade à diminuição da obesidade na população infanto-juvenil. Seria o mesmo que aconselhar de modo unilateral a prática de futebol. Pode parecer um preciosismo meu, Ramiro, mas há uma razão: convém enfatizarmos o contributo da actividade física regular e da aptidão física porque desse modo abarcamos todos os interesses de prática. É também por esta razão que defendo o reforço da carga horária de Educação Física na escola.
Miguel
De acordo.
Já defendi em vários posts o reforço da Educação Física. Se a área de projecto acabar, as horas a ela destinadas deveriam reforçar a E.F.
Falaram de Educação Física?
A minha área, a minha paixão.
Nem era preciso o reforço da carga horária. Bastava colocar em prática o estipulado na lei e nos programas. Passo a explicar:
1. Sabe-se hoje que 3 é o número mínimo de estímulos semanais necessários ao desenvolvimento (significante) das capacidades motoras (requisito para a aprendizagem motora e para a melhoria da saúde).
2. A lei (Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de Janeiro) define num dos seus anexos que a carga horária implícita nos currículos reporta-se a tempo útil.
3. Os programas emanados pelo ME referem, “A eficiência da aplicação deste programa depende da garantia da existência de três sessões de Educação Física por semana, no mínimo, com tempo útil de 45 minutos, em dias não consecutivos, por motivos que se prendem, entre outros, com a aplicação dos princípios do treino e o desenvolvimento da Aptidão Física na perspectiva da Saúde” (p. 22).
E qual é a realidade: 2 estímulos semanais para o 2º, 3º CEB e Secundário; 1 estímulo no caso dos CEF (aberração completa).
Muitos (tolera-se a incompetência para quem não é da área) vão dizendo: mas têm os três blocos. Realmente têm, só que a dinâmica que encerra a componente da carga não permite alcançar a sua finalidade quando os blocos são juntos (aula de 90'). Os fenómenos de supercompensação só acontecem se a interacção entre repouso e estímulo for eficaz. No secundário existem 180 minutos desdobrados em dois tempo de 90. Para quê? Bastavam 135 minutos (3x45') de tempo útil.
É por esta razão que me considero, enquanto professor de Educação Física na escola, "UMA FRAUDE". Autêntico. Uma fraude porque, mediante o estipulado, a minha acção é à partida estéril. Lecciono conteúdos que desde logo sei que jamais os conseguirei alcançar. É frustrante.
Não acredito nas teorias conspiradoras, mas o Estado, com este tipo de medidas, está a incrementar uma biopolítica em que o poder é exercido na definição centralizada dA vida. Ora, isto desresponsabiliza e, como diz o Ramiro, aliena, tornando o poder do Estado quase absoluto. Faz-me lembrar o 1984: na teletela aparecia uma menina do aparelho a obrigar à ginástica matinal. Esposito, na senda de Foucault, lançou um livro (ed.70) sobre a questão do Biopoder. Talvez haja uma leitura interessante sobre estes fenómenos.
Acrescento algo que tem sido muito pouco referido: a política que o ME está a seguir de encerramento sistemático dos serviços de cozinha nas escolas que ainda os iam mantendo. Os cozinheiros que se reformam não são substituídos e as refeições escolares, saudáveis e equilibradas, são transformadas num negócio para as empresas de catering. O que podia ser um espaço privilegiado para a educação alimentar passa a visar apenas o lucro, que será tanto maior quanto menor for o custo dos alimentos servidos.
António Duarte
Muito bem observado. Não me tinha lembrado disso.
Rui
O reforço curricular da Educação Física é a melhor forma de combater a obesidade infantil e juvenil. Alimentação saudável nas cantinas e bares das escolas é outra medida essencial.
Ramiro:
Como puderemos nós perspectivar o reforço curricular se nem o que hoje se encontra estipulado é concretizado na prática?
É que o erro pode continuar a ser metodológico e não logístico. Vamos supor que a carga horária é aumentada para dois blocos de 135 minutos. O problema continuará igual.
Sobre a alimentação. Outro cavalo de troia. Quantas lutas são travadas para, no mínimo, as escolas assumirem o que se encontra escrito nas diversas comunicações sobre o assunto. Continuamos a ter máquinas a vender de tudo menos produtos de qualidade nutritiva.
Dizem que assim os alunos não saiem da escola para o fazer no exterior. A minha resposta é sempre a mesma: cada um com as sua responsabilidades.
Já não era mau se se cumprisse o que está legislado e cada um assumisse as suas responsabilidades.
É o mesmo estado que entrega uma crianças a uma mãe alcoólica que continua a sê-lo e o mesmo estado que não dá resposta a problemas graves de droga, prostituição, alcoolismo, assaltos à mão armada, roubos...