Por que razão sou contra a avaliação interpares?
Ao longo dos últimos 20 meses, publiquei no ProfBlog centenas de textos a criticar a avaliação interpares. Resumo as críticas em três frases: provoca uma guerra civil de baixa intensidade nas escolas, aumenta o ressentimentos entre os professores e dificulta o trabalho cooperativo dos professores. Estas consequências negativas só desapareceriam caso houvesse apenas a menção de Bom e fossem abolidas as quotas e contingentes. Como há as menções de excelente e de muito bom e como o ME não abrirá mão da definição de percentagens de muito bom e de excelente, a avaliação interpares será sempre um instrumento de promoção do mal-estar nas escolas. E, claro, de agravamento da burocracia. E mal-estar gera desmotivação profissional.
A minha proposta nunca será aceite pelos sindicatos nem pelo ME. Os primeiros porque julgam - não sei se com razão ou sem ela - que a maioria dos professores tem receio de uma avaliação externa ; os segundos porque não querem gastar um euro a mais com o sistema de avaliação docente e porque estão interessados no prolongamento da guerra civil entre professores. Atenção: eu não digo guerra dos professores. Essa acabou. Digo guerra civil entre os professores. São coisas muito diferentes. A segunda interessa ao patronato/Governo.
E qual é a minha proposta? Defendo um sistema misto com uma componente interna e outra externa. A interna a cargo do director da escola que avaliaria a assiduidade e o cumprimento do serviço distribuído. A externa, a cargo de um supervisor, especialista na área curricular do avaliado, oriundo de uma escola básica ou secundária diferente do avaliado ou até mesmo de uma Universidade idónea que faça formação de professores com qualidade. Seria um sistema semelhante ao do 2º ano da profissionalização em serviço. A intervenção de um supervisor externo e o alargamento dos ciclos avaliativos para quatro anos reduziriam ao mínimo a burocracia em torno dos procedimentos de avaliação e não agravariam o exercício das funções lectivas dos docentes.
E não se diga que não há supervisores com experiência e conhecimentos em avaliação docente. O sistema da profissionalização em serviço existe há mais de duas décadas e há milhares de supervisores, distribuídos por todo o país, que colaboraram, anos e anos, no 2º ano da profissionalização em serviço. Por que razão não aproveitar os conhecimentos desses docentes?
E para os educadores de infância e professores do 1º CEB seria possível e desejável aproveitar a rede de professores cooperantes e supervisores da Prática Pedagógica e Estágios das Universidades e ESEs, envolvendo-os na componente externa do processo de avaliação de desempenho.
Foto: Londres. Tower Bridge
Ramiro:
Agradeço o interesse e apoio com que acolheste aquilo que proponho há meses em inúmeros comentários que foram ou ignorados ou criticados pelas sereias do negacionismo.
Aparentemente só existem duas posições antagónicas nesta assunto:
1 -Governo: Estabelecer quotas de acesso para reduzir a despesa pública corrente como aconselha o FMI. A avaliação é apenas um justificativo.
2 -Sindicatos e negacionistas: Auto-avaliação sem quotas ou avaliação nenhuma.
Como é usual neste país ambos terão o pior de 2 mundos...
Wegie
Crédito para ti. Aprendi alguma coisa com os teus comentários sobre os erros de uma Add CENTRADA NA AUTO-AVALIAÇÃO e na avaliação interpares.
O modelo misto com duas intervenções, uma interna e outra externa, parece-me o mais indicado. E anularia os argumentos que sustentam as quotas e os contingentes.
Ramiro, concordo quase integralmente com a tua proposta - nem todos os supervisores do 2º ano da profissionalização são competentes na área por motivos diversos. Seria preciso perceber quem realmente está habilitado quem não está. Mas o caminho pode ser este - avaliação interna através do director e especialistas em avaliação na área do avaliado.
Os supervisores só por terem sido até agora, não significa que sejam especialistas em avaliação, cuidado...
Mais um "pormenor": o que se vai avaliar? Qual o rumo da avaliação? Pretende-se uma reforma? Então, em que sentido se deve conduzir a avaliação? Será a avaliação um processo isolado ou deve estar integrado num todo? Se calhar deve fazer parte de uma estratégia global...
Além disso, Ramiro, muitos dos supervisores estão ligados às ESE's e bem sabemos a falta de competência que há em muitas ESE's deste país que tiveram quase como única função, certificar professores por Portugal ter déficit... Muitos dos que entraram nas ESE's não tinham média para entrar noutros cursos e as ESE's foram em determinada altura o saco onde tudo coube...
Pelo menos alguns deles são supervisores...
Não generalizo porque há muito bons professores nas ESE's e há ESE's que funcionam muito bem mas também há muitas que deixam muito a desejar... E muitos professores das ESE's também... Bem o sabemos...
Por muito que nos custe admitir, Ramiro, o processo de avaliação tem várias fragilidades - por um lado, falta de especialistas que não se formam de um dia para o outro. Por outro, vivemos uma situação em que cada professor tende a avaliar o colega de acordo com o que acha que deve ser a educação... E aquilo que acha que deve ser a educação, está normalmente subjugado ao que faz, isentando o que faz de sentido crítico e não havendo consistência científico-pedagógica no seu agir... Não há rumo... Mesmo sem quotas, como propões, o problema de a avaliação ser um contributo para a melhoria da qualidade educativa, continuaria a existir a melhoria da qualidade da educação, deve ser o centro de qualquer processo de avaliação.
Cristina
Demasiados ses.
Ramiro, antes de implementar seja o que for, não basta fazer é preciso pensar e a pressa é inimiga da perfeição como sabemos. O anterior governo começou a mudar por razões económicas, alegando motivos pedagógicos e a qualidade da escola pública o que, como todos sabemos, é falso.
Agora, com esse ponto de partida, errado, tenta-se implementar, em 30 dias imagine-se, outro modelo que tenha de facto que ver com questões pedagógicas. Se assim é, tem que se pensar bem nas coisas.
Uma das coisas que criticámos, e muito bem, na anterior tutela, foi a falta de diálogo, a falta de reflexão conjunta, o não se ter envolvido os professores, o perceber-se que um modelo de avaliação para ter bases consistentes, precisava partir da base pedagógica!
Isso continua a ser verdade agora embora a ministra seja outra e a sua abordagem também.
Claro que o PSD, não aprovando a suspensão do anterior modelo, como aliás tinha no seu programa eleitoral, e dando ao governo um prazo de trinta dias para a apresentação de um novo modelo, veio piorar muito a situação mas todos nós que lutámos, professores ou não, contra uma maioria absoluta, não vamos agora deixar de o fazer por uma questão de prazos...
Se está em causa a qualidade da escola pública, actuemos de acordo!
Completamenteeeeeeeeeee de acordo com a Cristina!!! Antes de implementar...é preciso pensar, consultar os verdadeiros actores: Nós!
Só q acho q o q os motiva é o dinheiro e, infelizmente, o dito tem muita força...mas continuaremos a protestar, o conformismo é q é negativo, estagna, apodrece.
Peço licença para discordar da posição "metodológica" do Ramiro Marques neste debate.
Os "ses" da Cristina Ribas e a sua consciência de que falta um rumo para a nossa causa por uma educação rigorosa, democrática e de qualidade das novas gerações, correspondem a uma atitude que me parece fundamental na presente situação. Tanto mais que não é mais possível, no ponto em que as coisas estão, voltar a soluções utilizadas no passado, como as que propoõe o Ramiro para a avaliação dos professores. Diante de nós, temos um Estado (e correspondente poder governamental) que não é mais o Estado "educador" a que estávamos habituados, mas é sim um Estado (e governo) "capitalizador" da actividade educativa. Com esse Estado (governo) só se pode negociar numa posição de força, uma vez que a sua acção tem por fundamento um projecto que é completamente estranho a uma concepção de educação alicerçada naqueles princípios. A "guerra dos professores" não terminou - ela apenas começou. Sendo absolutamente correcta a preocupação do Ramiro com a divisão interna dos professores (a tal "guerra civil de baixa intensidade"), essa preocupação não deveria ter apenas a ver com um desejo de "pacificação" das escolas, mas também com a existência de condições para que a nossa "guerra" possa conseguir resultados. Porque se não for através da "guerra", toda e qualquer solução para problemas como o da "avaliação", seja de "pares" ou seja "externa", será sempre má para a maioria dos professores e para a maioria dos alunos, uma vez que ela terá sempre por critério e por fundamento a "melhoria contínua" dos resultados escolares, que é hoje o santo e a senha da transformação capitalista da actividade educativa e da consequente proletarização da classe docente.
P.S. A minha preocupação com este comentário é exclusivamente de carácter "metodológico" (não encontro um termo melhor), como no início afirmei. De maneira nenhuma defendo que problemas concretos, como o da avaliação, o da progressão na carreira, o dos currículos e programas, o dos métodos pedagógicos, o da organização dos tempos escolares, etc., não devam ser debatidos e melhorados, até porque é neles que estamos mergulhados na nossa labuta diária e é desse debate que tem de sair um projecto global de alternativa à presente crise na educação.
Atenção! Perigo iminente: “Professor Grelhado”!
Estado ou condição de um docente sujeito a um modelo de avaliação interpares. Munido de um lápis ou utilizando um suporte digital, um colega do avaliado observa a aula e vai preenchendo com cruzinhas uma grelha referencial, fruto de longas horas de reflexão, e que, no que se refere à relação pedagógica estabelecida com os alunos, por exemplo, contém “pérolas” do género: “Dirige-se aos alunos de forma assertiva, num tom calmo e positivo”; “Olha sempre ou quase sempre directamente para o seu interlocutor”; “Em caso de conflito ou desacordo, avalia os argumentos e/ou comportamentos do outro e não a pessoa em si”; “Não utiliza ou raramente recorre a expressões do tipo “És sempre a mesma coisa” ou “Nunca estás com atenção”.
Exagero?
Olhem que não, caros colegas! Olhem que não!
Optimista
Obrigado pelo comentário e pela argumentação usada. Quando eu digo que a guerra dos professores terminou estou apenas a tentar interpretar o estado actual de conformismo e passividade nas escolas. Noto muito adormecimento. Oxalá, esteja enganado.
Fernando Cardoso
Excelente descrição do que é a avaliação interpares.
Não me parece nada exagero Fernando.
Então não se recorda das normas, ditadas pelo ME, para os vigilantes dos exames?
Sobre os "ses" da Cristina Ribas:
"...nem todos os supervisores do 2º ano da profissionalização são competentes na área por motivos diversos."
"Além disso, Ramiro, muitos dos supervisores estão ligados às ESE's e bem sabemos a falta de competência que há em muitas ESE's deste país que tiveram quase como única função, certificar professores por Portugal ter déficit... Muitos dos que entraram nas ESE's não tinham média para entrar noutros cursos e as ESE's foram em determinada altura o saco onde tudo coube...
Pelo menos alguns deles são supervisores..."
Comentário: O mesmo, por maioria de razão e numérica poderia ser dito dos professores a serem avaliados...será necessário "purgá-los" para que o sistema educativo finalmente sofra melhorias significativas?
Segundo a Cristina:
1 - A avaliação inter-pares é horrível.
2 - Os supervisores externos são horríveis.
3 - Resta a sua simplória e certamente excelente auto-avaliação...
Quebrando mais uma vez a promessa:
1. Quem é que deve ser avaliado?
2. Para quê?
3. Por quem?
4. Qual o modelo?
5. Que instrumentos?
6. Quem produz os instrumentos?
7. Que escala?
8. Deve haver quotas/contingentes?
9. Qual o ciclo?
10. Quem avalia os avaliadores (internos ou externos)?
11. Quem e quando se avalia a AVALIAÇÃO?
Dedicado à Turma dos Negacionistas.
"...Quis deixar de de dar aulas ao fim de 17 anos ( estou virtualmente desempregado). Não quis esperar para saber se viria a ser um fracasso ou não. Não tenho paciência para a autodecomposição, prefiro a arte da desistência.
Desistir é uma definição humana. Uma leoa não desiste, uma mosca também não. Desistir é o segredo que nos há-de salvar da guerra e da destruição. E é também uma boa desculpa."
Filipe Nunes Vicente in Mar Salgado
Dedicado à Turma dos anti-Negativistas:
Creio que o único livro humorístico (própriamente dito) escrito por Berthand Russel é The Good Citizen's Alphabet (O Alfabeto do Bom Cidadão), da Gaberbocchus Press, 1953. Sem falar no prefácio de Professor Mmaa's Lecture, de Stefan Themerson, no qual Russel declara:
"O mundo tem gente demais acreditando em coisas demais. Se houvesse menos gente acreditando em menos coisas, talvez tudo fosse melhor."
O Good Citizen's, com desenhos esplêndidos de Franciszka Themerson (mulher de Sthefan?) é apenas um abecedário cívico "não facilmente entendível para quem não tenha capacidade de entendê-lo". Exemplo de algumas definições:
Asneira - O que você pensa.
Bolchevique - Alguém de quem eu discordo.
Diabólico - Aquilo que tem possibilidade de diminuir a renda dos ricos.
Estúpido - Tudo que pode ser verdade.
Injusto - Vantajoso para o outro lado.
Juventude - O que acontece aos velhos quando em movimento.
Liberdade - Direito de obedecer à polícia.
Objectivo - Uma manifestação de loucura quando é compartilhada por vários lunáticos.
Pedante - O sujeito que escreveu este livro.
Revolucionário - Sujeito que serve à humanidade de uma maneira que ela não aprecia.
Sagrado - Aquilo de que os arcebispos não duvidam.
Verdadeiro - Tudo que é aceite pelos examinadores.
Virtude - Submissão ao governo.
Xenofobia - A certeza andorrana de que os andorranos estão com toda razão.
Os textos acima foram extraídos do jornal "O Pasquim", edições de 12 e 19/02/1979, gentilmente cedidos por Regina Werneck e Luiz Jorge para pesquisa.
Podes acrescentar:
OBJECTIVO - Uma ilusão partilhada por outros lunáticos
CRISTÃO - contrário aos Evangelhos
The Good Citizen’s Alphabet, Bertrand Russell & Franciszka Themerson, Gaberbocchus Press, from Design Observer.
Destacando e insistindo, dentro do tema:
Verdadeiro - Tudo que é aceite pelos examinadores.
Tanta coisa que se diz... Desculpem mas ou se bate no ceguinho ou não se diz nada de novo...
Com uma diferença. Dantes eram insultos à ministra, agora atacam-se uns aos outros.
Resumindo o que aqui se diz:
Os que são contra avaliações estão chateados porque vão ter uma.
Os que são a favor de avaliações estão chateados porque vão ficar com a que tinham o que, curiosamente, leva à única coisa em que todos concordam: a anterior avaliação era uma palhaçada e os partidos políticos e sindicatos andaram a brincar à politiquice.
Agora que se voltou a cair na realidade, rapidamente se apercebe que todo o frenesim que houve por causa da ADD nada foi mais que uma manobra para conquistar votos, desviar as atenções do que é essencial e ganhar uns tempos de antena para ganhar umas coroas com a subida de audiências.
celeste
O tempo para pensar acabou. Andamos já meio ano a pensar, falar, debater e protestar.
Este é um dos problemas de Portugal. Fala-se muito e faz-se muito pouco.
Elenáro
Tem razão, embora eu saiba q há sempre um tempo para tudo, só não sei é quanto...mas tb me parece q o tempo para pensar acabou.
Só q se quer implementar u ADD sem q tenha havido u consulta previa aos seus alvos. É verdade q em Portugal fala-se muito e o excesso de verborreia é u suplicio para os ouvidos, sobretudo quando esta não é acompanhada de u seria reflexão.
Estamos num impasse.
Desculpem as gralhas e a semântica, fui acordada por u queixoso ex pretenso engripado A e fiquei verborreica...
"Resumindo o que aqui se diz:(...)Todo o frenesim que houve em torno da ADD nada foi mais que uma manobra para conquistar votos". (Elenáro)
Dizer isto, como "resumo do que aqui se diz" é próprio, na melhor das hipóteses, ou de quem não viveu os últimos dois anos nas escolas, o de quem se demitiu de pensar ("o tempo de pensar acabou" - mas foi para o E.). Houve, sem dúvida, quem teve sobretudo a preocupação dos votos, e esses são, na minha opinião, os que, no momento decisivo que se seguiu à manifestação de 8 de Março de 2008, deram a mão à Ministra e ao Governo. Mas afirmar tal, como "resumo do que aqui se disse", é completamente inaceitável. Há blogues que desempenharam (alguns ainda desempenham) um papel importante na nossa luta, onde proliferam comentários do tipo dos que o E. aqui deixou. Mas, neste blogue, o debate ainda é sério e não deve ser diminuído. Existe hoje uma grande indefinição quanto ao que deve ser uma base de debate e de unidade dos professores nas presentes circunstâncias. Essa indefinição deve-se, em larga medida, aos que, ocupando lugares de responabilidade no parlamento e nos sindicatos, decidiram mais uma vez dar a mão ao Ministério e a Sócrates, legitimando o "primeiro ciclo avaliativo" e criando falsas expectativas quanto à acção futura destes. Mas deve-se também à dificuldade de traçar um caminho alternativo face a um projecto global e muito forte de transformação capitalista da actividade educativa. Face a isto, é preciso, no meu entender, nunca abandonar a luta, mesmo quando ela parece difícil, debater muito e, ao contrário do que dizem os Eleanáros, pensar, pensar muito e melhor do que fazem os nossos adversários.
Optimista
Obrigado. O ProfBlog continuará a dar voz à luta dos professores e a acompanhar os altos e baixos dessa luta.
Há sempre partidos que fazem aproveitamento políticos das lutas mas isso não diminui a razão dos professores.
Optimista
Estava a falar especificamente aqui do blogue, não em geral. Aliás, ainda mais especifico que o blogue era aos comentários deste post. Mais nada.
Em relação ao pensar, optimista, enquanto você pensa eu ajo se não lhe for muito inconveniente. Eu sei que quebrar a inercia a que todos estamos habituados é tramado... mas é tempo de se fazer um esforço. Eu faço-o. Quanto a você, pelos vistos, prefere ficar-se por um exercício meramente reflexivo.
E quanto ao debate ser sério aqui, não disse que não o é. Mas, sendo eu já um frequente leitor deste blogue, já vi e revi o mesmos argumentos de todos, incluindo os meus. Como gosto pouco de me repetir sem que isso leve a algum lado e como também não gosto de ver os outros fazer o mesmo pois desgastam-se e criam-se desavenças desnecessárias acho que seria altura de deixar outros falar.
Não quero dizer com isto que alguém deva ser censurado, apenas acho que andar sempre a dizer o mesmo sem se chegar a lado nenhum é contra-producente.
E optimista, antes de me atirar com coisas à toa, devia de ler os meus comentários todos. Tem muito para ler. Como gosta de reflectir, era um bom exercício e tinha-lhe ficado bem antes de vir para aqui gastar latim atacando-me de forma totalmente despropositada. Pelos vistos não pensou, não reflectiu.
Estava para não me meter nesta discussão, dadas as longas horas que já aqui se gastaram com ela. Mas... cá estou para recuperar duas ou três coisas que aqui escrevi e que, meses depois, elições ganhas e perdidas, esperanças e frustrações, continuma a fazer sentido (preferia que não fizessem, podem crer):
1. O centramento da discissão na ADD afasta-nos do mais importante: ensinar;
2. A ADD é irreversível porque foi assumida como tal pela opinião que é feita pelos que fazem a opinião pública;
3. A ADD esteve, está e estará embrulhada em relações de poder no meio de jogos de poder: apoia-se ou recusa-se consoante as circunstâncias. Não por princípio mas por estratégia ou mesmo táctica;
4. Os sindicatos negoceiam na mesma lógica das relações de poder no meio de jogos de poder;
5. Os movimentos "independentes" são movimentos de pressão, não são parceiros negociais: os sindicatos, únicas estruturas representativas dos professores reconhecidas como entidades negociais, rapidamente se encarregarão de os neutralizar quando lhes for vantajoso;
6 e último. Não estávamos e continuamos a não estar preparados para a frustração. Por isso, continuamos a não a reconhecer e a centrar a profissão docente no desejo, que é fonte, como todos sabemos, de frustração...
Estaremos então condenados à inacção? Por muito zen que sejamos convém não sucumbir à inacção. Convém, por isso, mobilizarmo-nos para a promoção da dignidade da actividade de ensinar ("Ensinar" e não "aprender a aprender"), da indispensabilidade do nosso mister, da honorabilidade do educar, que, convenhamos, não o temos feito.
Gastamos demasiado tempo com o que não nos dignifica, esquecemos o que verdadeiramente nos tornaria indispensáveis: o saber e o ensinar: quem sabe ensina, quem não sabe aprende.
"Estava a falar especificamente aqui do blogue (...) [e] aos comentários deste post".
Pois, o problema é exactamente esse - a desconsideração que, em meu entender, mostra pelo blogue e pelos que comentaram neste post.
Optimista e Elenáro
Partilho as preocupações de ambos. Mas, por favor, como o Diácono Remédios dizia "não há nexexidade".
Tens razão, Elenáro, eu que só aqui cheguei em julho, salvo erro, já estou cansado de tanto tempo gasto com a ADD, imagino o que acontece a quem já por aqui andava há meses!... (se professasse o americano "Time is money" já pensaram na fortuna que por aqui tem escorrido?!...)
"Pois, o problema é exactamente esse - a desconsideração que, em meu entender, mostra pelo blogue e pelos que comentaram neste post."
Continue a pensar nisso.
O Ramiro sabe bem o que penso do blogue dele. O Wegie e o Miguel Loureiro também já me conhecem e sabem onde quero chegar. Por isso, se quer pensar isso, continue. Estou cansado de me explicar.
Jad
Eu já nem sei quando comecei a aparecer por cá, mas andei aqui bem frequentemente durante um bons meses e só não tenho andado mais porque estou cheio de trabalho e porque, como disse, penso que não é preciso andar sempre a dizer a mesma coisa. Isto não implica que o Ramiro deixe de publicar sobre os assuntos, mas comentar sempre tudo da mesma maneira, não gosto e penso que se ganharia mais se se falasse de outros assuntos.
É como dizes, jad, assim não conseguimos falar do essencial.
jad!
Concordo que o essencial da nossa profissão é ensinar e é aí que devemos centrar as nossas energias.
Mas, por outro lado, porque é que se tem falado tanto de avaliação? Exactamente porque da forma como a tutela a quer implementar, vai ter consequências, negativas, em termos pedagógicos. Por outro lado, a tutela sempre foi dizendo que alterava e que simplificava mas, analisadas as mudanças, percebia-se que isso era falso, que eram apenas formas de tentar dar a volta às coisas, não perdendo a face. (Mas essa atitude é que é perder a face porque reconhecer o erro é sinal de dignidade). Portanto ainda se fala tanto em ADD também porque o governo insiste em fingir que muda e que muda para melhor. E se a estratégia é vencer a classe pelo cansaço, então, se temos mesmo que resistir, sobre sobretudo ser resiliente, e lutar de facto pelo que é importante.
E esse foi o grande erro da tutela - subverter a filosofia de base da ADD - estar preocupado com questões financeiras e alegar motivos pedagógicos! Foi por aí que tudo ruiu, porque passado todo este tempo, se a preocupação fosse de facto pedagógica, já com certeza teríamos já um modelo de avaliação que fosse mais um instrumento na melhoria da qualidade da educação.
Por outro lado, referes um aspecto muito importante - a necessidade de pensarmos que todos temos coisas para melhorar, que todos podemos ser sempre melhores profissionais, ainda que sejamos excelentes e, por isso, todos estarmos disponíveis para reconhecer o que e como, podemos melhorar.
É por isso que acho muito oportuna esta mudança do blogue em alargar os temas muito para além da avaliação - temos criticado, e muito bem, a tutela; de qualquer modo, não nos podemos esquecer que a verdadeira reforma educativa só pode acontecer quando todos estivermos dispostos a ir mais além! Todos nós precisamos melhorar e para isso a capacidade de nos auto-questionarmos é fundamental.
O tom do Elenáro, junto com o desabafo do Jad, são a expressão de uma corrente que era inevitável que emergisse nesta altura com algum relevo: a corrente que, por ser então fraca e também pelos erros políticos do Governo anterior na sua mobilização, não pôde servir de apoio a esse mesmo Governo na prossecução do seu projecto de mudança educativa. É por via da formação e organização desta corrente, que é agora mais difícil realizar a unidade dos professores contra o mencionado projecto. Perante esta realidade, a questão que sempre separará a dita corrente daqueles que não desistiram, é esta: teve ou não sentido e justificação a luta que travámos nos dois últimos anos? Mantêm-se ou não se mantêm as razões que determinaram essa luta? Quanto aos caminhos e às alternativas, essa já não é talvez questão que interesse debater com as pessoas que se identificam com essa corrente, pela simples razão de que encontraram já, no projecto protagonizado pelo Governo, o seu próprio caminho. Assim sendo, acho que não devem existir despeitos pessoais, mas sim respeito mútuo.
E continuo a acreditar na nossa força e na nossa razão.
Obrigado, Jad, Elenário e Optimista
Eu sinto também um certo cansaço dos temas ADD e ECD. Insistir demasiado neles, rouba espaço ao blogue para os assuntos pedagógicos, tudo o que tem que ver com a nobreza da nossa profissão: ensinar.
Foi por isso que passei a dedicar menos espaço à ADD. Mas quando há notícias sobre a ADD, o blogue tem de fazer eco delas.
Oh Optimista, mas em algum lado leu que alguém neste post a dizer que era contra a luta que se gerou?
Parece-me que não. E a razão não implique que se anda sempre a badalar nela da mesma maneira.
Ramiro
Concordo com a tua última frase 100%. O problema é que acho que se acaba sempre a dizer o mesmo passado um bocado. É disso que eu tenho pena e é disso que eu estou desgastado. Espero que percebas onde quero chegar.
Elenáro
Claro que percebo.
O blog tem de manter um equilíbrio entre, por um lado, o dever de informar sobre as lutas e reivindicações dos professores, fazendo eco dos seus protestos e, simultaneamente, abrir espaço para as questões de Pedagogia e tudo aquilo que está mais directamente relacionado com a qualidade do ensino.
Optimista!
O blogue vai continuar a ser um espaço de crítica das políticas educativas e conto consigo para isso.
Caro Ramiro Marques,
Peço desculpa por contribuir para o alongamento desta caixa de comentários. As questões pedagógicas têm uma relação íntima com as questões políticas. Aliás, estou convencido de que é em torno de questões ditas pedagógicas que, doravante, se irá desenvolver a mesma política e o mesmo projecto educativo que tivemos nos últimos anos.
Optimista
A pedagogia é inseparável da política. A questão central é: queremos uma escola ao serviço do desenvolvimento cultural e cívico dos alunos ou queremos uma escola ao serviço de interesses económicos conjunturais? Nós queremos a primeira mas o Governo insiste na segunda.
Talvez por isso, Ramiro, devamos insistir também. Não por mera teimosia mas porque sabemos que o caminho tem que ser por aqui. A par com isso, promover a reforma entre nós, reflectindo sobre as nossas práticas, sobre os problemas que se nos colocam, sobre o dia-a-dia escolar!
Caro Optimista, entendamo-nos:
1. Somos professores e, como tal, tudo o que disser respeito à escola diz-nos respeito;
2. A escola é uma organização: tem gente, vive de gente, como todas as organizações. Só que a escola ocupa-se da educação, da formação das novas gerações (já sei que, para alguns é tarefa demasiado ambiciosa para ela...);
3. A escola alimenta-se do saber. Por isso, há quem ensine (quem sabe) e quem aprende (quem não sabe) (ando a repetir-me demasiadas vezes);
4. Porque se alimenta do saber e se destina à formação das novas gerações o saber e o modo como se constrói e se transmite deve constituir o cerne do agir daqueles que ensinam - nós, os professores;
5. Como construtores e transmissores do saber que há-de formar as novas gerações nós, professores, temos necessidade de saber se o que andamos a fazer cumpre ou não a finalidade a que se destina;
6. É para isso que serve a avaliação;
7. A ADD destina-se a esse fim. Mal como foi estruturada, fundamentada, implementada? Certamente;
8. A alternativa à ADD forçada pelo ME esgotou-se, para a tal opinião pública, com a célebre
proposta da plataforma sindical - "auto-avaliação";
9. A luta (ou as lutas? não é insignificante a opção) é importantíssima, deve manter-se mas, na minha perspectiva, deve centrar-se naquilo que referi no comentário anterior: na promoção da nossa dignidade, honorabilidade e indispensabilidade que, repito-me, não o temos feito;
10 e último. Somos diferentes mas não somos estúpidos. É preciso saber quando parar, quando avançar, quando recuar. E acima de tudo, na(s) luta(s) devemos saber dos fins, dos objectivos e escapar à atracção pelo abismo que norteia muitos líderes por essa história fora. Portanto, caro Optimista, não se trata de correntes, trata-se de saber para onde nos leva a corrente. E nem todas vão dar ao mar...
Caro Jad,
De momento, tenho pouco tempo para responder ao seu texto, mas ele parece confirmar o que disse anteriormente. Para mim, não é concebível abstrair de uma política educativa que liquida constantemente a tal escola do saber de que fala e que vai no sentido de mecanizar todos os procedimentos e acções no meio escolar. Se o Jad não vislumbra, em cada acção relevante dos responsáveis governamentais, mais uma peça no sentido dessa mecanização, a qual reduz o professor a um replicador, como agora se diz, de "boas práticas", eu vislumbro - e está aqui uma das nossas divergências. Ora, a luta contra esta "mecanização" é a primeira condição para defender e acrescentar a dignidade dos professores, de que também fala. Quanto ao que diz da escola como organização, digo-lhe para já que só concebo uma alternativa ao projecto educativo actualmente dominante a nível dos poderes instituídos, como sendo aquela que recusa a transformação da escola numa "organização como as outras", não apenas nem principalmente em nome da especificidade da escola, mas também e principalmente porque uma crítica à transformação capitalista da actividade educativa só pode existir em coexistência com a crítica ao modelo das organizações às quais se pretende equipar a escola.
Caro, Optimista,
Claro que vislumbro "em cada acção relevante dos responsáveis governamentais, mais uma peça no sentido dessa mecanização, a qual reduz o professor a um replicador".
Quem é que, preocupando-se com a escola, não o reconheceria?
Só que, para mim, e sublinho o "para mim", não é essa mecanização que identifica o agir pedagógico e educativo. É exacatamente o contrário: o agir pedagógico e educativo, o ensinar e o aprender, é libertador, é um agir que justamente pretende escapar a essa malha enclausurante do mecanicismo de toda a ordem: do pensar, do saber, do conhecer, do administrar, do agir.
Se perdermos essa dimensão libertária da actividade pedagógica e educativa estaremos condenados - estaremos a condenar-nos - ao esvaziamento da nossa razão de ser. E, nessa altura, caro Optimista, já nada valerá a pena.
Caro Jad,
Terminamos como começámos. Não se pode opor a luta à preocupação de ensinar. Porque é dos que mais sentem a importância da educação das novas gerações, dos que mais capazes se mostram de se entregar ao seu ofício de professor, dos que mais sofrem com a contínua destruição do gosto de aprender de que são vítimas as nossas crianças e os nossos jovens, não pela "incompetência" dos professores, mas porque o sistema que temos não "quer" e não "precisa" que eles se desenvolvam como seres humanos completos - é desses que se espera que se entreguem a uma luta de resistência e de procura de caminhos alternativos, porque se eles não se encontrarem nas primeiras filas, tal luta ficará desprovida da alma de uma pedagogia libertadora. Existe um poder económico e político que nos agride, nos achincalha, nos impede de exercer a nossa profissão em condições minimamente dignas e proveitosas. Ora, será aceitável que, nesta situação, os "mestres do ofício" (ou, pelo menos, os que se julgam como tal) escolham dizer que "a minha política é ensinar", ou, o que é o mesmo, que não se pode opor um outro poder àquele que nos oprime. Acha isso bem? É "irreversível" a ADD que nos querem impor? Então também é "irreversível" tudo o que nos impuseram até aqui. Era o que faltava! Mas não se preocupe, caro Jad. A hora da "pedagogia", de "ensinar bem e depressa a todos", da "melhoria contínua" das aprendizagens, de avaliar o professor pelos resultados dos alunos, é o que aí vem pela mão do Governo. Que tal deixar para essa altura a continuação deste debate?