Um testemunho dramático de abuso de carga horária. À atenção da ministrada educação

Lecciono a disciplina de Português no Ensino Secundário e, não sei se sabe, leccionar esta disciplina implica desenvolver continuamente 5 competências e com toda a necessidade de busca e elaboração de recursos, definição de estratégias, com apenas 2 blocos semanais. Tenho 5 turmas, e 3 níveis de ensino: 10º, 11º e 12º ano e ainda apoio uma aluna vinda do estrangeiro e que não é considerado componente lectiva e ainda um bloco de OPTE. Está a ser brutal, porque ainda sou sub coordenadora ( Delegada) de 9 professores e ando numa acção de formação sobre os Novos Programas de Português para o Ensino Básico, de 15 em 15 dias ( até Junho: 50 horas presenciais e 70 online), deslocando me 150 kms ( inicialmente a DGIDC tinha me colocado a 250 km de casa que fica na mesma vila onde se situa a Escola).

A DGIDC pediu às escolas que me tirassem do horário não lectivo, apenas 3 x 45 minutos e depois que reproduzisse a acção na escola. A DGIDC está a exercer uma pressão brutal quer junto da nossa formadora, quer, agora, junto das Direcções das escolas para implementarmos a acção. Com tanta reunião está a ser impossível arranjar um "buraco" para que eu possa aplicar a acção na minha escola. Entre os 15 dias das sessões presenciais, a formadora pede imensas tarefas: reflexões, trabalhos, estudos e com uma bibliografia em catadupa, havendo obras com 300 páginas e em várias línguas!

Hoje foi dia da minha deslocação, cheguei a casa eram 20 horas e estou neste momento quase com um nó na cabeça: olho a resma de testes que tenho à minha frente, olho trabalhos diversos dos alunos dos diferentes níveis, precisava de procurar estratégias diferentes, recursos, etc e aqui estou sem saber a que horas irei descansar.

Tenho 56 anos e 27 de ensino e estou a sentir que regrido, a sentir-me impotente, nem aos fins de semana descanso. O ano lectivo passado, levei 48 alunos do 12º ano a Exame Nacional, passaram todos na 1ª fase e a escola, na disciplina de Português, no ranking, ficou no 15º lugar e isso fez-me sentir recompensada. Não este ano, sei que não vou conseguir levar tanta água a tanto moinho. Esta frustração, esta revolta contra a falta de tempo está a transformar-me, está a tornar-me amarga e eu que sempre fui extrovertida, eu que estou nesta escola vai para 21 anos, perto da minha casa, eu que já nem tenho filhos pequenos, sinto-me deprimida de dia para dia porque não me deixam fazer aquilo que amo: preparar aulas, dedicar-me mais à causa que é a essência da minha vida profissional.

Para argumentar em defesa da minha situação (e de muitos colegas) não queria apontar dedos noutras direcções, mas acho inconcebível que todos os professores de todos os ciclos de estudos/disciplinas, tenham as mesmas horas de serviço individual.

Em suma: na escola estou 22 horas + 3 horas ( formação, mas que em deslocação e mais frequência redundam em mais de 6 horas e meia); 11 horas de trabalho individual onde mais de metade é gasta em reuniões semanais na escola, mesmo no suposto dia de paragem lectiva. Restam os fins de semana super ocupados, onde tento, sob pressão adiantar serviço que também tem passado pela definição de PCT's no secundário.

Deixei de ter vida própria...acho que mesmo com penalização, para o próximo ano largo tudo. E lamento, adoro o que faço, moro quase colada à escola, sei que sou uma referência como professora...mas esta escravidão recuso-a, não apenas por princípio, mas também por exaustão física e psicológica o que já se repercute na família.
Peço desculpa se o texto apresentar alguma desordenação, mas sinto-me exausta neste momento.
Célia Abreu
Foto: Londres

6 Response to "Um testemunho dramático de abuso de carga horária. À atenção da ministrada educação"

  1. Este testemunho deixa-me perplexa. Eu tenho imenso trabalho porque lecciono dois níveis a quatro turmas e ainda sou coordenadora de PM. Nunca tenho um fim-de-semana livre para mim e para os meus familiares. Tenho dois filhos, uma que ainda tem 5 anos e outro com 16 anos. Eles têm no pai o seu principal apoio, pois a mãe, coitada, é professora ...
    Mas perante a situação da colega, a minha é bem mais cómoda...

    mariafrc says:

    Sou professora de Português numa escola secundária, já com 63 anos de idade,mas 20 de serviço e, portanto, redução de apenas 2 tempos lectivos.
    Tenho como maior dificuldade gerir a sobrecarga de reuniões mensais a que estou obrigada, em decorrência da leccionação de cinco níveis de duas disciplinas a 7 turmas: PORTUGUÊS(Cursos Profissionais, 10º E 11ºanos;Ens. Recorrente por Módulos, duas turmas do 12º ano)e CULTURA, LÍNGUA E COMUNICAÇÃO níveis 5 e 6 –Cursos EFA (além da área de PRA – Portefólio Reflexivo de Aprendizagem - por ter o cargo de Mediadora), mais aulas de apoio e uma tutoria).
    Como são cursos que exigem reuniões mensais, acrescidas às demais reuniões mensais obrigatórias como as de Grupo, Mini-grupos (10º, 11º e 12º anos)e juntando-se ainda às reuniões realizadas por período como as de Mediadores EFA, Tutoria, Conselhos das 7 Turmas e Departamento, além de outras reuniões ocasionais, resultam em sérias dificuldades de compatibilização com os horários disponíveis dos demais grupos de docentes, sem que tenha, frequentemente, os três turnos diários ocupados.
    Já contabilizo 31 reuniões desde Setembro.
    Outra consequência desta sobrecarga é o insuficiente tempo individual destinado à preparação e planificação dos 20 tempos lectivos semanais - todos diferentes, em conformidade com os vários níveis e sistemas de ensino e que exigem a construção de materiais diversificados.
    Na totalidade, o horário semanal ultrapassa as 60 horas.
    De acordo com as regras e limites legalmente estabelecidos no Despacho n.º 19117/2008, de 17 de Julho, art.º 5º, a componente de trabalho individual tem um número mínimo de 10 ou 11 horas (e não 8 como consta no meu horário) devendo ainda ser tidos em conta, para além do critério "número de alunos", outros como o número de turmas e/ou de níveis/disciplinas atribuídos ao docente. E, ainda em conformidade com o n.º 2 do artigo 2.º,a componente de trabalho individual só pode incluir reuniões "que decorram de necessidades ocasionais" e não fixas, como é o caso.
    Nos termos do art.º 79 do ECD,não posso ter horas extraordinárias em virtude de ter uma redução de 2 TL, entretanto tenho no horário 1,5 hs. extraordinárias (correspondente a 1tempo lectivo nocturno)embora o art.7.º do ECD determine, em caso de redução, a impossibilidade de prestação de serviço lectivo extraordinário (salvo nas situações em que tal se manifeste necessário para a completação do horário semanal do docente em função da carga horária lectiva da disciplina que ministra, não sendo este o caso).

    Acrescem-se, ainda, as horas destinadas à formação específica e obrigatória que realizo neste período,com duração semanal de três horas presenciais - 19 às 22hs.
    São sistemas de ensino em que pela primeira vez actua (perdidas as continuidades por conveniência do serviço) e que consomem, consequentemente, maior tempo individual de estudo e preparação de estratégias diversas. A sobrecarga de metodologias, níveis e correspondentes reuniões, além de impossibilitar a planificação das diferentes aulas diárias e inviabilizar a pesquisa e criação constantes de materiais necessários principalmente à disciplina de CLC, retira-me o direito à vida pessoal, familiar e ao descanso, com consequências a nível da saúde física e mental, sendo a idade-63 anos-um factor agravante.
    Embora tenha pedido consideração do problema à direcção da escola, foi indeferido o requerimento.
    Sinto-me explorada.

    Obrigada pela oportunidade de desabafar.

    Conceição Rodrigues

    mariafrc
    Amanhã publico o seu depoimento.

    Ana Cláudia!

    Em terra de cego quem tem olho é rei, mas o que temos que mudar é que em terra de cego quem não tem olho é cego!

    Isto para dizer que não é porque há situações gravíssimas que temos que pensar que à nossa não deve ser dada atenção!

    Deve sim, e por tudo o que já referi em outros posts - porque com maior ou menor gravidade, devemos perguntar-nos se a distribuição de serviço e a carga horária, estão ao serviço do processo de ensino-aprendizagem!

    Miguel
    O testemunho da Mariafrg merecia um post. Podes colocar o texto dela num post? Nao tenho meios para o fazer aqui.

    Ramiro
    Já está agendado, desde ontem, para hoje à tarde.