Refutando António Barreto na defesa da municipalização das escolas, empresarialização da gestão escolar e enfraquecimento da carreira e do estatuto dos professores
É crime pensar que as escolas poderiam ter uma liberdade quase total e uma vasta autonomia que lhes permitissem recrutar elas próprias os seus professores e alunos. Ou admitir que estas escolas não pertencem ao Estado, mas sim à comunidade, a quem devem prestar contas. A.B.
Volta e meia António Barreto volta à carga com a ideia de que os problemas da educação se resolvem com a contratação local dos professores e a entrega das escolas aos municípios. Olha para o exemplo nórdico e entusiasma-se. Recusa ver que a tradição portuguesa e os hábitos culturais do nosso Povo são muito diferentes das tradições escandinavas. Entregar o recrutamento e a gestão das carreiras dos professores aos autarcas é abrir a caixa de Pandora da corrupção e do nepotismo. E iria criar ainda maiores diferenças no acesso à escola e no usufruto dos bens educativos.
É considerado sacrilégio encarar a hipótese de os directores, professores ou não, serem contratados, pela escola ou pela comunidade, para exercício dos seus mandatos durante quatro ou cinco anos. Pensa-se que é totalmente descabido estudar a possibilidade de cada escola adoptar os seus métodos de ensino, adaptando-os às necessidades e corrigindo os erros e as deficiências...Não se aceita que o currículo nacional seja reduzido ao mínimo necessário para assegurar a livre circulação dos cidadãos dentro do mesmo país. A. B.
A retórica da destruição do currículo nacional é cara a António Barreto. Não quer ver que Portugal é um pequeno rectângulo de 10 milhões de habitantes que gozam de grande uniformidade linguística e partilham uma cultura fortemente homogénea. Uma coisa é dar autonomia às escolas para gerirem e adaptarem o currículo; outra é dar a cada uma o poder de criar um currículo distinto. A ideia de afastar os professores do processo de escolha das direcções executivas, colocando essa selecção nas mãos das elites políticas e económicas da comunidade, é antidemocrática e causadora de maior alienação, anomia e desmotivação dos professores. Seria uma catástrofe para as escolas públicas e um desastre para os professores.
Não se admite que seja posta em causa a existência de carreiras nacionais únicas para os professores do básico e secundário, assim como para o universitário. Afasta-se a hipótese de as comunidades e as escolas definirem as suas próprias regras disciplinares. Em poucas palavras, não se admite que a educação não constitua um “sistema” único, integrado e centralizado. A. B.
António Barreto não quer que os professores tenham direito a uma carreira única e nacional. Lembro que ele beneficiou, como tantos outros investigadores, de uma carreira única e nacional - a carreira do investigador - ocupando durante décadas, com mérito e dedicação, o cargo de investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais. Felizmente para ele nunca teve de depender da vontade, da apreciação e dos apetites dos políticos locais ou das elites de uma qualquer comunidade.
Os parágrafos destacados são de António Barreto in Blogue Jacarandá
Foto: Jovens alunos à saída de uma escola secundária em Berlim, no dia 20/11/2009
A história
A 1ª ideia que me surge ao ler as 3 receitas de António Barreto, é que há um desfasamento entre o território que pisa e a realidade que nos PISA.
Quando fiz um cursinho na área da educação, os teóricos que nos davam para alimento espiritual, ou eram espanhóis ou eram americanos. Sobre o currículo, todos vaticinavam a redução do nacional, em favor de uma diversidade regional que o complementasse. Entretanto dei por mim a pensar, que sendo os EUA uma nação Federal e a Espanha, na prática a mesma coisas, até se compreenderia, pelas competências estaduais/comunidades autónoma que as respectivas constituições conferem.
Mas que tem esta divisão político-administrativa a ver com este pequeno território, Portugal, em que cada vez mais somos mais iguais nos comportamentos, apenas com a Grande Lisboa a diferenciar-se, por razões de outras ordens?
Se os "melhores técnicos" em exercício no Ministério da Educação reproduzem estas coisas que toda a gente contesta, imagine-se o que seria, concelho a concelho, encontrar "competentes" para a tarefa, com os vereadores que cada um conhece a ministrinhos da educaçãozinha.
Só porque hoje é sábado...
Do resto deixo para outros, mas a coisa é mais perigosa!
Miguel
Excelente análise. Concordo contigo a 100%.
Este post merece debate. Oxalá, os colegas peguem no assunto.
Os outros dois pontos, a autonomia /independência e a carreira/carreiro municipal, estão ao mesmo nível, para pior. Ele há cada pensador, que nem pensa, mesmo com estudos científicos, que nos mostram a realidade que já todos conhecemos.
A criatura que é verdadeiramente especialista em Vinho do Porto tal como o seu colega VPV em Gin, sobrevive te tenças do Estado que seriam mais próprias do Regime abolido em 1820 do que da contemporaneidade.
Posto isto começa por colocar em questão uma verdade já determinada por milhares de estudos sobre capital humano e desenvolvimento tanto na área da História Económica como da Sociologia e Economia pura e simples:
"Acreditou-se em que uma boa educação elevaria o nível cultural das populações e seria fonte de desenvolvimento."
E agora? Já não se acredita? Pergunte-se isso aos povos que acedem ao desenvolvimento como os chamados BRIC. Será que eles não possuem uma boa educação?
Depois vem a velha lamentação com a despesa pública em educação que como é sabido foi sempre históricamente pífia no nosso país. Os Orçamentos segundo Barreto não podem esticar. Mas esticam para BPN's BPP's e BCP's para não falar dos deslizes d 40% na construção de auto-estradas como a de Trás-os-Montes que já passou de 3 para 5 milhões num ápice (Para os bolsos do Jorge Coelho e Mota e Companhia).
Para a criatura "....a educação não resolve os problemas sociais, culturais e políticos. Não cria os homens e as sociedades de que se estava à espera. Não gera por si própria desenvolvimento."
Bem se ele pensa assim resta-me aplicar a célebre frase do professor e ex presidente da Universidade de Harvard:
“Se acham a educação cara, experimentem a ignorância.”
Para finalizar considerar a possibilidade de que o currículo nacional seja reduzido ao mínimo necessário para assegurar a livre circulação dos cidadãos dentro do mesmo país, significa tão só ensiná-los a caminhar (pelo menos para as anuais peregrinações a Fátima) e construir mais auto-estradas (sem portagens) e, claro 5 linhas de TGV! Porreiro pá!
O resto: Privatize-se! Comecem pela RTP e a TAP.
Wegie
Gostei de ler. Oxalá o António Barreto possa ler este post e o teu comentário. Um investigador com as responsabilidades dele não pode ser tão superficial e acolher tantos lugares comuns sobre a educação.
Desta vez bato palmas ao Wegie.
O António Barreto é melhor a descrever e a analisar do que a propor ou a decidir. Tem uma carreira académica brilhante, mas como político - que também foi - não deixou saudades.
Parece-me que em relação à educação básica e secundária, o facto de não ter qualquer envolvimento directo com o sector - não tem filhos, nunca foi professor senão na universidade - poderia até dar-lhe o distanciamento que, aliado à sua formação sociológica, lhe permitisse fazer uma leitura objectiva e isenta dos problemas e das realidades, a qual conduzisse a propostas válidas, interessantes e relevantes.
Mas a verdade é que Barreto se limita a debitar umas quantas ideias feitas - as mesmas há demasiado tempo - revelando quer a sua falta de conhecimento da realidade quer os preconceitos ideológicos que pretende usar como receita pronta a aplicar na educação.
Nas escolas dos outros, entenda-se, que na dele nem pensar...
Ramiro e Miguel
Venho, com frequência, a este blogue, porque o aprecio verdadeiramente, tornou-se um vicio para mim ler-vos diariamente.
Também sou uma leitora atenta do António Barreto, para mim é um prazer lê-lo e considero-o lúcido, atento e um critico da nossa sociedade muito meticuloso e perspicaz.
Não partilho esta sua pretensão de entregar o destino das escolas nas mãos do poder local. Valha-nos Deus! Não o entendo, desta vez, e não acredito que o mova má fé ou alguma má vontade contra os professores, a quem já o ouvi, muitas vezes, defender. E, por este mesmo motivo, discordo com a forma como o Ramiro se lhe dirigiu. Achei-o um nadinha hostil...não lhe parece?
A propósito, leram hoje a entrevista que ele deu ao jornal i?
" Em Portugal quase toda a gente depende do Estado, do governo, das instituições públicas oficiais, dos superiores, dos empregadores. Não há verdadeiros focos de independência. Depende-se de muita coisa: do alvará, de ter autorização, de ser aceite, da boa palavrinha do bom secretário de Estado que diz ao bom banqueiro que arranje uns bons dinheirinhos para fazer o investimento. A dependência é enorme. Não é asfixia, uma vez mais, é dependência. As pessoas têm receio pelo seu emprego, pelo seu trabalho, pelo trabalho da família. Conheço algumas que até têm receio de falar..." A. Barreto
Então, como seria para as escolas, se dependessem do poder local?
Nem quero imaginar!
Celeste
Também gosto de ler o António Barreto. Desta vez, Limitou-se a divulgar umas ideias feitas sobre educação e eu não gostei das propostas dele, mas admiro-o como intelectual, sociólogo e ensaísta.
Celeste
Reli o texto. Substituó o "salivar" por "entusiasmado".
Obrigado pelo reparo.
Relativamente ao comentário do António Duarte:
1 - Barreto não tem uma carreira académica brilhante. Isto significaria a publicação de obras marcantes na especialidade de autoria própria. Ora se verificarmos a sua produção bibliográfica ela é constituida na sua quase totalidade por obras em ele surge como Organizador (org.) isto é reuniu uns textos de uma equipa de escravos/clientes (A Situação Social em Portugal é um bom exemplo) aos quais juntou uma introduçãozeca.
2 - Não é nem foi professor de nada e de ninguém é Investigador-principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que é como se sabe um coio de ultra-liberais conservadores (João Carlos Espada, Rui Ramos, Vasco Pulido Valente, Filomena Mónica, etc.) que ganham ordenados equiparados a professores universitários para estarem sentados nos seus gabinetes (no caso da Mena Mónica ela própria confessa que já não sai de casa) para "pensarem" na morte e privatização da bezerra.
Isto tudo à custa do contribuinte!
Ainda se queixam da despesa pública em educação...
Celeste
Quem diz aquilo que transcreveste e sabe do que fala dos meios em que se move(u) e vem sugerir sobre educação o que sugeriu... Bem dizes, que nas autarquias ia ser bonito. Mas a receita é mesmo essa, mais ano menos ano, a não ser que algo rebente. ELES são teimosos e cada vez mais as pessoas se calam, pelas causas que ele descreve.
Ai Miguel! Que pessimismo... Não acredito, o ME é muito centralizador, iria lá dar o seu poder às autarquias...
Mas no fundo, bem lá no fundo eu temo que o Miguel tenha razão...Oxalá se engane!
Há aqui uma grande confusão entre a ligação da escola à comunidade e a passagem de competências para as autarquias, muito mais com poderes de decisão sobre o currículum...
Na escola de hoje faz todo o sentido que haja uma boa ligação entre a escola e a autarquia - e faz sentido também porque os recursos são tão poucos que é muitas vezes a autarquia a assegurar o que o ministério de veria proporcionar.
Contudo, mesmo aceitando que esta ligação deve existir e ser consistente, tal não significa a defesa da municipalização.
Neste processo da chamada, mas não realizada, reforma educativa, tudo foi feito com base em muitas confusões e é preciso saber separar as coisas.
Do longo texto que AB escreveu retive uma ideia assassina, que revela quase tudo sobre a natureza do pensamento do homem, do sociólogo e do investigador - a oposição entre métodos de ensino democráticos e métodos de ensino disciplinadores - pelo que de antidemocrática tem esta oposição.
Admiti-la significa que a democracia é sinónimo de indisciplina e que a redenção necessita de uma ditadura.
A gravidade de tal afirmação impede-me de considerar o resto do texto como uma proposta séria de debate.
António Barreto é, afinal, como todas as outras pessoas, estudiosas ou não. Acertam umas e dizem disparates que fervem noutras. Há muito tempo que a minha maneira de analisar o que os outros dizem ou escrevem parte da ponderação sobre o que pensam sobre os vários assuntos e das linhas de incoerência que as (des)unem. Mas o que também se verifica é que os "pensadores" têm necessidade de dizerem coisas diferentes do óbvio, pois esta é a única maneira de sobressaírem e de lhes pagarem. Em parte, parece havem uma tentativa de destruição do senso-comum, do razoável e do racional.
Ao mesmo tempo que vão multiplicando a ideia de que os cidadãos devem estar preparados para competir a nível global e de que o emprego permanente e próximo "já foi", vão criando a ideia do ensinozito muito próximo, entregue a gente que não vê além do seu umbigo, e que nos vê a todos como os "seus munícipes".
Mas não é só isso. Alguém já referiu atrás o tamanhito deste país. Com razão. Querer dividir estes dez milhões de pessoas seria a mesma coisa que chegar a uma grande cidade (Nova Iorque, p.e.) e dividi-la, primeiro, em dois países iguais a Portugal em população, depois estabelecer que cada rua passaria a dispor de uma "vasta autonomia". Até aprecio António Barreto, mas que ando farto de "pensadores" até à ponta dos cabelos, lá isso ando.
"Em parte, parece haver..."
Às vezes, esqueço-me de fazer por baixo a assinatura...
José R.
Boa, José R. Quem muito escreve e muito fala tem mais probabilidades de asneirar do que os outros.
Ramiro: sobre a foto, vejo que lá, como cá, a moda de segurar as calças com as coxas também existe. É uma grande e confortável moda, comparável a algumas ideias dos nossos brilhantes pensadores.
Ao fim de milhares de anos de evolução do vestuário, e do conforto no vestir, alguém teve a excelente ideia de pôr alguns jovens a andar de perna alargada para segurar as calças. Vou-lhes chamando a atenção, mas não ganho muito com isso. E logo eu que nem sou contra a MODA!
José
A moda das calças ao fundo das nádegas é universal. Deve ser desconfortável mas a rapaziada gosta.