Os Malefícios da Rivalidade na Escola - Agostinho da Silva

Ontem, na caixa de comentários do texto de Agostinho da Silva sobre a Escola, o Martins publicou, um outro texto do mesmo autor, que não é de perder. Ei-lo!

"Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.

A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de «struggle» que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.

Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta.

Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

Comentário:
Se a intenção era criticar um Sistema Educativo, que cria “concorrência” entre os alunos, também estou de acordo, mas se em vez de aluno, substituirmos por professor, vamos de encontro às razões da contestação desta ADD. Ou não vamos?

9 Response to "Os Malefícios da Rivalidade na Escola - Agostinho da Silva"

  1. Excelente texto, Miguel

    Um texto lapidar. Um comentário lapidar.

    É esta, e sempre foi, a minha ideia não só de Ensino mas de Vida.

    Quando os únicos "valores" são a competição materialista e rasteira, o egocentrismo, o desejo de esmagar a "concorrência", o resultado é infelicidade, depressão e úlceras no estômago.

    A qualidade de qualquer desempenho atinge-se pela criação do que alguns entendidos chamam um "ethos", e não atirando um osso a uma dúzia de cães.

    É a curva de Gauss na avaliação dos alunos, são as quotas na avaliação dos professores, é o vale-tudo da nossa Sociedade doente.

    Jorge Arriaga
    Bem-vindo!

    Foi exactamente o que pensei, Miguel!

    Olá amigos,

    Venho sempre dar uma vista de olhos, embora não comente quase nada. Continuo a achar este blogue o mais lúcido e equilibrado do género.

    Parece-me que vou ter de torcer a orelha quanto a Isabel Alçada, a quem mandei uma bicada brincalhona noutro dia.
    Espero que ela faça um bom mandato, e espero torcer a orelha muitas vezes.

    Abraços,

    JA

    Jorge Arriaga
    E tu és dos comentadores mais lúcidos. Dá sempre enorme prazer ler os teus comentários.

    Benilde says:

    Também visito diariamente o blog e faço-o com muito prazer embora ultimamente não tenha vontade de comentar.
    Parabéns a todos os que o mantêm vivo e actual, reforçando o elo de ligação entre os professores e a consciência de que não estamos sós.

    Benilde says:

    Gostei muito da visibilidade dada a Agostinho da Silva pensador que muito admiro e cujas ideias humanistas e ideais de educação nos fazem falta.

    Martins says:

    A vida para além da ADD e ECD:

    "Entraram no rio, Anabela e o filho, Anabela foi salva pelos remadores, junto à ponte. O que não se sabe é o que aconteceu. Ainda não se sabe. Quem deu pela falta? Quem alertou a GNR? Quem os procurou, de noite? Ainda não se sabe o que fizeram, na tarde e na noite de terça-feira, como dormiram, o que comeram, que disseram um ao outro, o que fazia André enquanto ela escrevia a carta que deixou à beira- rio. O que ainda não se sabe é quantas vezes Anabela olhou para o rio e o que viu nas águas. Ainda não se sabe como desceu as escadas. Como segurava a mão do menino. Como se entra nas águas, como se entra no rio, como a água entra nos pulmões, como a morte é rápida e silenciosa, como a corrente é forte e o corpo de Anabela se afasta do corpo do menino e dispara para a foz, até que os remadores que treinam junto à ponte a recolhem, um vestido branco arrastado pelas águas, uma mulher sozinha com uma mão aberta e, como diria a fonte do Hospital em Gaia, “bastante afectada psicologicamente”. in a "natureza do mal"

    Desculpem lá a repetição, mas é mais forte que eu...