Nem tudo o que luz é ouro no envolvimento parental nas escolas

1. As escolas portuguesas e as vidas dos professores, alunos e famílias dos alunos estão a ser sacudidas por uma produção legislativa cujos efeitos estão ainda por apurar e avaliar, mas que estão a mudar as percepções que as famílias dos alunos têm dos professores e as percepções que os professores têm da sua profissão. A profissão docente está a mudar e a percepção que os professores têm da sua profissão e do seu estatuto está a atravessar uma profunda crise manifesta em descrença e vitimização.

2. A retórica dos benefícios do envolvimento parental nas escolas e no processo educativo dos alunos chegou tarde a Portugal (princípios da década de 80 do século passado), mas tem vindo a ganhar um peso crescente na configuração das novas políticas educativas. O novo estatuto da carreira docente dos educadores e dos professores dos ensinos básico e secundário (ECD) revela o peso dessa retórica, nomeadamente ao permitir que as famílias dos alunos participam no processo de avaliação do desempenho dos professores, ainda que essa participação seja meramente simbólica. As novas funções que o novo ECD acrescenta às funções tradicionais dos professores (nomeadamente, assegurar as substituições, os complementos educativos e a ocupação dos tempos livres dos alunos) são uma resposta do poder político à crescente pressão do movimento associativo dos pais que, como é sabido, tem procurado que algumas funções tradicionalmente exercidas pelas famílias passem a ser exercidas pelas escolas. A retórica política oficial acentua mesmo o conceito de “escola a tempo inteiro”!

3. Como se fosse possível e aconselhável manter as crianças nos espaços escolares todo o dia, em actividades estruturadas e formais, sob a dependência directa e a orientação de professores! Sendo um conceito absurdo e perigoso, a “escola a tempo inteiro” mereceria longos parágrafos, mas a economia deste texto impede-me de o aprofundar. Registo apenas a sua perigosidade!!!

4. Há até quem diga, em tom jocoso e certamente exagerado, que o novo ECD está a transformar os professores em empregados domésticos dos pais. Sendo um exagero, essa afirmação reflecte, em parte, a realidade dramática da crescente assunção de responsabilidades e funções por parte dos professores, que há muito viram acrescentar às funções tradicionais de planificação, ensino e avaliação, novas e crescentes funções de carácter social e de apoio à família.
Foto: Flores do Sri Lanka
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