Horário de malandro… IV
Sou professora de Português numa escola secundária, já com 63 anos de idade, mas 20 de serviço e, portanto, redução de apenas 2 tempos lectivos.
Tenho como maior dificuldade gerir a sobrecarga de reuniões mensais a que estou obrigada, em decorrência da leccionação de cinco níveis de duas disciplinas a 7 turmas: PORTUGUÊS (Cursos Profissionais, 10º E 11ºanos; Ens. Recorrente por Módulos, duas turmas do 12º ano) e CULTURA, LÍNGUA E COMUNICAÇÃO níveis 5 e 6 – Cursos EFA (além da área de PRA – Portefólio Reflexivo de Aprendizagem - por ter o cargo de Mediadora), mais aulas de apoio e uma tutoria).
Como são cursos que exigem reuniões mensais, acrescidas às demais reuniões mensais obrigatórias como as de Grupo, Mini-grupos (10º, 11º e 12º anos) e juntando-se ainda às reuniões realizadas por período como as de Mediadores EFA, Tutoria, Conselhos das 7 Turmas e Departamento, além de outras reuniões ocasionais, resultam em sérias dificuldades de compatibilização com os horários disponíveis dos demais grupos de docentes, sem que tenha, frequentemente, os três turnos diários ocupados.
Já contabilizo 31 reuniões desde Setembro.
Outra consequência desta sobrecarga é o insuficiente tempo individual destinado à preparação e planificação dos 20 tempos lectivos semanais - todos diferentes, em conformidade com os vários níveis e sistemas de ensino e que exigem a construção de materiais diversificados.
Na totalidade, o horário semanal ultrapassa as 60 horas.
De acordo com as regras e limites legalmente estabelecidos no Despacho n.º 19117/2008, de 17 de Julho, art.º 5º, a componente de trabalho individual tem um número mínimo de 10 ou 11 horas (e não 8 como consta no meu horário) devendo ainda ser tidos em conta, para além do critério "número de alunos", outros como o número de turmas e/ou de níveis/disciplinas atribuídos ao docente. E, ainda em conformidade com o n.º 2 do artigo 2.º,a componente de trabalho individual só pode incluir reuniões "que decorram de necessidades ocasionais" e não fixas, como é o caso.
Nos termos do art.º 79 do ECD, não posso ter horas extraordinárias em virtude de ter uma redução de 2 TL, entretanto tenho no horário 1,5 h extraordinária (correspondente a 1tempo lectivo nocturno) embora o art. 7.º do ECD determine, em caso de redução, a impossibilidade de prestação de serviço lectivo extraordinário (salvo nas situações em que tal se manifeste necessário para a completação do horário semanal do docente em função da carga horária lectiva da disciplina que ministra, não sendo este o caso).
Acrescem-se, ainda, as horas destinadas à formação específica e obrigatória que realizo neste período, com duração semanal de três horas presenciais - 19 às 22hs.
São sistemas de ensino em que pela primeira vez actua (perdidas as continuidades por conveniência do serviço) e que consomem, consequentemente, maior tempo individual de estudo e preparação de estratégias diversas. A sobrecarga de metodologias, níveis e correspondentes reuniões, além de impossibilitar a planificação das diferentes aulas diárias e inviabilizar a pesquisa e criação constantes de materiais necessários principalmente à disciplina de CLC, retira-me o direito à vida pessoal, familiar e ao descanso, com consequências a nível da saúde física e mental, sendo a idade - 63 anos - um factor agravante.
Embora tenha pedido consideração do problema à direcção da escola, foi indeferido o requerimento.
Sinto-me explorada, transformada em máquina.
Obrigada pela oportunidade de desabafar.
Conceição Rodrigues
Excelente post, Miguel.
Vamos continuar a denunciar as cargas horarias excessivas por mais uns dias.
Depois, lancamos nova campanha. A garia de topo do blogue serve para isso: denunciar o que esta mal.
Ramiro
Não sei porquê, mas tem havido muitas visitas de americanos, talvez pelos artigos do Stiglitz e do Bourdieu.
Também tem crescido o número de visitantes do Brasil.
Os de cá é que estão calados, excepto os que têm assumido, com nome e tudo, os excessos da gestão autocrática.
Vais ver Miguel que o pessoal anda todo a comentar nos blogues brasileiros e americanos. O que não admira, com as notícias que vão por cá...
Já agora Ramiro: Não é excesso de optimismo dizer que, nas escolas, o clima começa a desanuviar?
Como pertenço aos "pessimistas moderados", parece-me que as causas do esgotamento dos prof.s se mantêm. E veremos que nada têm a ver com ADD e estrutura da carreira (Bem sei, bem sei que já disse isto muitas vezes. OK, não digo mais).Com o passar do tempo agravar-se-ão as consequências. Pelas minhas bandas os atestados estão aumentando. E também um ou outro caso de abandono de lugar (por recém-contratados que não aguentam a pressão). E as conversas "de cortar à faca" na sala de professores. A generalidade das situações de sobrecarga detectadas não poderão ser corrigidas este ano. Até porque são "legais". E têm razões mais profundas que o simples somatório de horas disto e daquilo. É a total falta de respeito do trabalho dos professores por parte dos seus responsáveis. Veja-se, como exemplo, que já se brinca com os prazos para a definição de um novo modelo de avaliação. Bem gostaria de não ter razão no pequeno texto que o Miguel aqui publicou ainda antes de se saber quem seria a nova ME. Dizia que, no essencial, tudo ficaria na mesma e que iriamos servir de moeda de troca para o que fosse preciso. E não terão começado já algumas trocas?Entrar em negociações para a revisão do ECD foi o abrir a válvula, por parte do ME, para que a caldeira não rebentasse. Sobre esta matéria resumo a minha opinião, assim: O PS tem nas suas mãos o controlo de todo o processo relacionado com a revisão do ECD, incluindo a ADD e também as condições de trabalho dos docentes.
O que vivemos no dia-a-dia é a sensação de trabalhar na lama. Nem com tracção às quatro rodas. A cavalaria toda aplicada e o bicho não sai do lugar. Patina e cada vez mais se sente o chão a fugir. Mas há que continuar a denunciar, claro.
Mas deixem p'ra lá Ramiro e Miguel. Pensando bem, afinal isto é só um desabafo.
mmottamoreira
Já nem me lembrava que tinha dito coisa tão acertada. Bruxaria, ou como se diz, "um pessimista, é um optimista informado"?
Se fizermos a triangulação com os textos que publiquei nestes dias, sobre Sociologia, Economia e Media, é fácil adivinhar o futuro, analisando o presente, numa perspectiva sem fronteiras entre as "Ciências" Sociais e as "políticas" Sociais...
Mmotamoreira
Como disse o Miguel, ha muito que nao lia coisa tao acertada.
O esgotamento mantem-se. E o fumo branco nao ha meio de aparecer. Os professores nao podem abrandar a pressao.
desculpem a falta de acentos. O teclado nao tem.
A colega Conceição Rodrigues deveria ter redução de 4 tempos lectivos.
DL 15/2007 - "Artigo 79.º
Redução da componente lectiva
1—A componente lectiva do trabalho semanal a que estão obrigados os docentes dos 2.o e 3.o ciclos do ensino básico, do ensino secundário e da educação especial
é reduzida, até ao limite de oito horas, nos termos seguintes:
a)De duas horas logo que os docentes atinjam 50 anos de idade e 15 anos de serviço docente;
b) De mais duas horas logo que os docentes atinjam 55 anos de idade e 20 anos de serviço docente;
c) De mais quatro horas logo que os docentes atinjam 60 anos de idade e 25 anos de serviço docente.
José Marques
Obrigado José Marques, mas o/a Director/a da Conceição Rodrigues, não deve ter o ECD actualizado...
Penso que começa a ser tempo de nos concentrarmos também, colectivamente, nesta questão dos horários.
Temos que colocar o problema no centro das nossas preocupações na tentativa de favorecer uma resolução favorável do problema.
É um escândalo o que se tem passado com os horários dos professores um pouco por este país além. São conhecidas situações generalizadas do mais completo abuso, na matéria e tal situação justifica, já, uma reacção institucional.
Sindicatos e centrais sindicais com a colaboração activa de movimentos de professores e bloguistas deviam tomar o assunto em mãos numa acção tendente à clarificação da problemática e solução favorável aos interesses dos professores.
Se não formos nós, não vejo que por nós possa lutar por esta justiça, mais uma vez.
Saudações
Elias
Ao japm:
Só para o próximo ano é que poderei contabilizar 20 anos de serviço para ter mais 2 tempos de redução, segundo o ECD, pois só agora completei esse tempo. Infelizmente o que tenho de sobra é anos de idade e não de serviço... pena não ser o contrário...
Ao Ramiro e Miguel, fico-lhes muito grata pela solidariedade e pela persistente luta que travam pela dignificação dos professores.
Conceição Rodrigues
Elias
Se vem por aqui o Martins, o zedezede, ou o Contumaz e vê que disse:
"solução favorável aos interesses dos professores", vão já falar no corporativismo.
Talvez fosse melhor dizer: "solução favorável aos interesses de uma sociedade que quer ser justa, menos abusiva dos direitos dos "cidadãos de bem" e reconhecida a quem a ajuda a construir um futuro melhor." É mais comprido, mas talvez se cumpra.
Miguel
"solução favorável ao interesse dos professores" apenas e só porque estes estão a ser perseguidos e maltratados.
Portanto tratar-se-ia de uma questão de justiça e de reposição do bom senso.
Saudações
Elias