A directora-geral sem poder. A crónica de Santana Castilho no Público de hoje

Tendo a Educação ocupado boa parte das intervenções, foi significativo o mutismo da respectiva ministra1.Espero que depois do debate do programa do Governo não restem dúvidas aos que as tinham: a intenção é prosseguir a política, mesmo nos aspectos mais contestados e que as evidências demonstraram estarem errados. Para o núcleo político do Governo remodelado, dir-se-ia que a oposição, agora maioritária, não existe. Se com a avaliação foi o que se viu, que se poderá esperar da gestão das escolas, das trapaças com as contratações dos professores, da impreparada municipalização do ensino básico, do prolongamento do ensino obrigatório, da mistificação do profissional, dos duvidosos processos de renovação dos edifícios e equipamentos e da protecção sem limites aos pequenos delinquentes, que o Estado nacionalizou quando decretou que reprovar é retrógrado?

Recordam-se como Sócrates tratou os professores no início da última legislatura? Ameaçando com a requisição civil, logo que o horizonte se toldou com uma greve aos exames. Porque a medida era desproporcionada e de constitucionalidade duvidosa, pareceu-me desde logo evidente que estávamos perante uma determinação de impor uma política sem qualquer tipo de cedência ou diálogo. Quatro anos e meio de absolutismo na Educação confirmaram o que pensei. As previsões que aqui fiz, antes de se conhecer o programa do Governo, estavam igualmente certas, infelizmente. Demonstrou-o o respectivo debate: a política de Sócrates é inconciliável com qualquer cedência. Sócrates perdeu nas urnas o poder absoluto, mas não sabe governar em diálogo. O que aí vem é conflito atrás de conflito. Continuará o caucionamento legal da indisciplina e da preguiça. De Isabel Alçada esperem tão-só afirmações redondas, irresponsáveis, de directora-geral sem poder.

Para além dos ministros políticos do núcleo duro, fiquei particularmente atento ao debate, para ver sinais clarificadores sobre os novos. Tendo a Educação ocupado boa parte das intervenções, foi significativo o mutismo da respectiva ministra. Ficou todo o tempo arrumadinha a um canto da bancada. Nem pio. O ruído desse silêncio tornou-se ensurdecedor com o contraste que a colega do Trabalho, sentada mesmo ao lado, estabeleceu: às matérias da pasta respondeu ela, sem tutoria.

2.O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou a Itália por ter crucifixos em salas de aula. A queixosa é uma senhora finlandesa, que trocou a liberdade religiosa do seu país pela tirania religiosa de Itália. Em sentido contrário havia-se pronunciado o Tribunal Constitucional italiano e o Tribunal Administrativo de Veneto. Mas em Itália não manda Roma. Manda Estrasburgo. Comemorámos antes de ontem a queda do muro de Berlim, símbolo de um centralismo que deplorámos. Mas estamos atávicos ante outro centralismo que avança paulatinamente, confundindo culturas milenares com urticárias recentes. Ao que li, foram idênticas preocupações para não ferir a sensibilidade dos emigrados que terão levado os ingleses a retirarem dos livros escolares qualquer alusão ao holocausto. Por cá, aproveitou-se imediatamente a boleia para denunciar o crucifixo da parede de uma escola beirã. Porque temos conflitos que chegam, seria bom que não começássemos a invocar, de forma descontextualizada, a laicidade do Estado para dar cobertura a jacobinismos dispensáveis.

3.Digna de destaque foi a primeira iniciativa política do ministro das Obras Públicas, que mandou elaborar, em 60 dias, um Código de Conduta para quem trabalha sob sua tutela. O país já pode poupar o salário de uns quantos polícias, procuradores e juízes, porque era isto que faltava. Daqui a 60 dias, todos os dirigentes e funcionários, públicos ou híbridos, que reportam ao ministro das Obras Públicas, ficarão a saber que não podem actuar ilícita ou criminalmente, designadamente aceitar um Mercedes no Natal ou desviar fundos. Sim, porque antes, coitados, não sabiam, porque não tinham um Código de Conduta (uma coisa são as leis vigentes, outra, bem mais eficaz, é uma brochura ética prefaciada, quem sabe, por Armando Vara, onde se torne claro que não se é nomeado para traficar influências). Obviamente que a medida peca por tardia, porque todos os que já roubaram não o teriam feito se o Código de Conduta já existisse. Para que não se incorra em descriminações censuráveis, sugiro que o Código de Conduta tenha um capítulo dedicado à redenção de quantos, por desconhecimento, prevaricaram antes da sua aparição.

4.Digno de destaque, igualmente, mas em sentido altamente positivo, foi o facto de Mónica Dias, directora de um laboratório do Instituto Gulbenkian de Ciência, ter sido considerada uma das investigadoras mais talentosas da Europa. Soube do acontecimento por uma modesta referência na imprensa, que reserva as primeiras páginas aos "varas" e aos "godinhos" da nossa sina. Mónica Dias ficou contente com os 60 mil euros que vai receber em prestações anuais iguais, ao longo dos próximos 4 anos. Vai gastá-los em prol do seu laboratório, de todos nós, direi eu, que, maioritariamente, não saberemos que ela existe. Que mundo este! Meia dúzia de telefonemas e outros tantos almoços para uns, ou um golo metido no momento exacto para outros, valem ao minuto muito mais que o trabalho de vidas dedicadas a salvar a nossa. Pela parte que me toca, obrigado, Doutora Mónica Dias. Obrigado pelo que faz e obrigado por continuar em Portugal. Professor do ensino superior. s.castilho@netcabo.pt

4 Response to "A directora-geral sem poder. A crónica de Santana Castilho no Público de hoje"

  1. Martins says:

    Parabéns para a Doutora Mónica Dias, que dispensa as luzes da ribalta, ao contrário do Castilho que não passa de um pirilampo com pretensões a candeeiro de iluminação pública.

    Já não há pachorra para aturar esta criatura alaranjada, cujo prazo de validade expirou aquando da sua saída do Governo

    Eu ouvi este homem num dos canais da TV. Tem um poblema de base: a realidade não consegue ultrapassar aquela carapinha.

    Mais claro, lúcido e conciso que Santana Castilho, é difícil.

    Infelizmente, nos tempos que correm, as pessoas rectas, HONESTAS, e de valor, andam em baixa, e os arrivistas medíocres em alta.

    Esta intervenção de Santana Castilho, vou guardá-la com carinho, para reler quando o País normalizar, após esta maré de loucura populista e caciquismo que o tomou.

    Martins says:

    Porra, tanta devoção, ainda vou ver alguém vender cabeleiras de cera nas imediações do santuário de Fátima