O que fazer com os movimentos? Nada, criar um sindicato verdadeiramente independente dos partidos ou uma ordem?


1. Ontem, tive oportunidade de conversar sobre esta questão com alguns protagonistas dos movimentos de professores. É um assunto complexo que não gera consenso. Há quem prefira não mudar a natureza dos movimentos, há quem opte pela fusão desses movimentos num sindicato independente dos partidos e há ainda quem defenda a criação de uma ordem de professores.

2. A verdade é que os movimentos não têm a logística e os recursos suficientes para mobilizarem os professores e, à luz da legislação portuguesa, não são parceiros nem têm poder negocial. E, claro, os seus dirigentes não gozam dos direitos que são concedidos aos dirigentes dos sindicatos.

3. O problema dos grandes sindicatos é que todos eles são dirigidos por professores que fazem parte das estruturas directivas de três partidos políticos, PCP, PS e BE e, em menor expressão, de um quarto partido, o PSD. 

4. Os dirigentes dos sindicatos condicionam as estratégias sindicais em função de dois critérios: as orientações e interesses dos partidos a que pertencem e a gestão das suas carreiras políticas.

5. Terminado um ciclo no processo de luta dos professores, importa discutir a questão colocada no título deste post. Eu inclino-me a favor do profissionalismo, seja ele expresso sob a forma de ordem ou de sindicato. Estou em crer que a fusão dos três movimentos numa ordem ou num sindicato lhes granjearia facilmente 10 mil inscritos, o suficiente para ficarem dotados de logística, recursos e profissionalismo.
Foto: Portas e janelas de Portugal. Rua de S. Bento, em Lisboa

4 Response to "O que fazer com os movimentos? Nada, criar um sindicato verdadeiramente independente dos partidos ou uma ordem?"

  1. Pôr o problema nestes termos é explorar terreno novo orientado por mapas velhos. Os sindicatos de professores são imprescindíveis, e tenho tudo a favor de que sejam o mais independentes possível dos partidos político. A ordem dos professores já devia estar feita há muito tempo: há décadas que me bato por ela e enquanto for professor não desistirei.

    Mas tanto a ordem como os sindicatos são necessariamente organizações pesadas e formais. A vantagem estratégica que os movimentos tais como são têm para os professores está na sua leveza, agilidade e capacidade de detectar em tempo útil os consensos - por vezes contraditórios entre si - que se vão formando no terreno.

    São uma forma nova de organização, produto da sociedade de informação e dependentes dela para sobreviver. Na sua relativa desorganização está a sua força. Não podem negociar, como os sindicatos, nem regular a profissão dos pontos de vista científico e deontológico, como poderia uma ordem*. Mas podem influenciar a agenda das organizações mais formais e mais pesadas, contribuindo decisivamente para pôr em cima da mesa as questões que verdadeiramente preocupam os professores.

    Se os movimentos existentes se integrassem em estruturas mais convencionais, o resultado é que depressa surgiriam outros movimentos grassroots em sua substituição.

    A tripeça tem que ter três pernas. Os sindicatos são, cronologicamente, a primeira. Os movimentos são a segunda. Falta a terceira, que é a ordem; não faria sentido cortar uma perna à tripeça para instalar outra.

    *O Governo julga que pode desempenhar as funções duma ordem, mas não pode. A sua autoridade é meramente política, e a autoridade necessária ao desempenho destas funções é de outra natureza.

    Obrigado, José Luiz Sarmento. Boa argumentação.

    IVM says:

    ORDEM precisamos COM URGÊNCIA!!!
    (Qualquer que seja o sentido que se quiser dar à palavra, mas eu referia-me mesmo à DE PROFESSORES)
    Concordo com o José Luís Sarmento, e até acho que uma comunicação constante entre as três pernas da tripeça seria o ideal, mas acho que precisamos URGENTEmente de um código deontológico e de uma organização legalmente reconhecida que o defenda.