As injustiças do (novo) concurso de professores. Um texto de João Duarte
Quem não está dentro do assunto pensa que tudo o que se passa com os professores são “ossos do ofício”. Passo, então, a expor a minha situação (que é idêntica à de muitos professores, mas sem acesso aos grandes meios de comunicação social):
Sou professor do 1.º Ciclo do Ensino Básico (antigo professor do Ensino Primário, vulgo professor primário) e pertencia, até agora, ao Quadro de Zona Pedagógica da Guarda (QZP 09).
Este ano o Governo resolveu alterar toda a mecânica do concurso de professores para, segundo afirma, estabilizar o corpo docente. E, se bem o pensou, melhor o fez. Como estava é que não podia ser.
Para isso, extinguiu os QZP e os professores deste quadro foram obrigados a concorrer a um Quadro de Agrupamento.
Mas há um pormenor que nunca é falado na comunicação social e só o conhece quem está no terreno. Aquando dos concursos não são apuradas todas as vagas, só algumas. Mais tarde é que vão aparecer outras vagas.
Como sou do Soito (concelho de Sabugal), concorri e coloquei (como é óbvio) o Agrupamento do Sabugal em primeiro lugar e os outros por aí fora, até Seia. Também podia concorrer a Agrupamentos fora do Distrito da Guarda e assim fiz, colocando, também, os Agrupamentos de Covilhã, Belmonte, Fundão e Penamacor. Não podia colocar outros, já que os Distritos de Viseu ou Coimbra, para quem é daqui, ficam longe e do outro lado é Espanha (e não se pode concorrer para Espanha).
Em Julho saíram as listas de colocação. Fiquei colocado, para quatro anos, no Agrupamento de Aguiar da Beira, que tinha posto em 19.º lugar nas minhas preferências (a única sede de concelho do Distrito da Guarda que não conheço). Ora isso fica a 130 Km do Soito, mais ou menos.
Houve muitos professores do (antigo) QZP 09 que não foram colocados e, aquando do concurso havia uma opção que era a de se poder concorrer a aproximação à residência (DAR), depois da colocação.
Acontece que concorri a DAR, mas muitos professores menos graduados do que eu foram, agora, colocados na 2.ª fase em Agrupamentos muito mais perto da minha residência, que eu tinha colocado como as primeiras prioridades no concurso. Também eu estou confuso e muitos outros professores o estão.
O que aconteceu é que os professores que foram colocados na segunda fase do concurso (e cuja colocação aconteceu no dia 28 de Agosto) ficaram em Agrupamentos muito perto do Sabugal e que me interessavam a mim, como Guarda, Almeida, Figueira ou Celorico. E eu estava bem à frente desses professores na lista graduada.
Ou seja, mais valia não ter sido colocado na primeira fase do concurso, que teria, depois, hipótese de ficar muito mais perto da minha residência.
Agora, que já estou colocado, tenho que ir para Aguiar da Beira.
Estas situações não passam na comunicação social. O que interessa é dizer que já estão colocados não sei quantos milhares de professores.
É assim esta vida de professor, agora.
Acho que esta situação comum a muitos professores tem que ser denunciada. Basta ver na Internet as queixas de professores na mesma situação ou os que pedem, encarecidamente, uma permuta para ficarem perto de casa.
Conhecem outra profissão onde se passe uma coisa semelhante?
O que poderá ser feito para alterar esta situação, já no próximo ano lectivo, uma vez que mexe com a vida de uma pessoa durante 4 anos?
No meu caso pessoal não tenho outra hipótese que não seja ficar em Aguiar da Beira, já que será impossível deslocar-me todos os dias para casa, com um Inverno como o do Distrito da Guarda (com gelo e neve).
Porque não foi seguida a lista graduada e as vagas não foram todas apuradas e se colocaram os professores todos em Agosto?
Para quê essa pressa de colocar os professores em Julho, quando ainda havia tantas vagas por atribuir?
Porque é que quem concorreu a DAR estava atrás de quem concorreu a DACL, quando os DACL estavam atrás na lista graduada?
O lógico seria que os DAR apanhassem os lugares que saíram no dia 28 de Agosto, e, como deixavam a vaga livre, esta seria ocupada pelos DACL. Assim, teria toda a lógica. Da maneira como o concurso foi feito só mostrou desprezo pelos professores mais graduados, que estão, com certeza, revoltados.
Atenciosamente
João Duarte
Essa dos 4 anos, só faz sentido se as pessoas estiverem no lugar certo. Porque não hão-de poder concorrer nos outros anos, as pessoas mais afastadas de casa e da família? Não seria um apoio à família?
Foram muitos os casos como este, infelizmente.
Disto a comunicação social nada fala e se falarem será sempre o colega João Duarte que não está pronto para a mudança, que quer fazer predurar as regalias de trabalhar a 130 km de distancia da sua residência, quando outros, bem menos graduados que ele, lhe ocuparam o lugar.
Nas manchetes lá vai aparecendo Valter Lemos a dizer que até na colocação de professores este ministério fez história. Pois fez, por sinal, uma história muito mal contada.
Caro amigo Miguel Loureiro: Isso é que era. Porque se eu pudesse concorrer o ano que vem, até aguentava bem este ano lectivo. Agora, quatro anos sem hipóteses de mudar é que é de doidos. Mas acho que a lei é mesmo essa: aguentar 4 anos, para desmoralizar.
Mas , enfim, sabe-se bem que quem faz estas leis não tem o menor pingo de humanismo. E eu não tenho mesmo sido bafejado pela sorte (porque isto dos concursos é um jogo de sorte ou azar e não deveria ser).
Gostaria de ver, também, quais as propostas dos partidos para esta situação injusta. Como a resolver, no próximo ano lectivo?
Quero agradecer ao Ramiro Marques por ter colocado aqui este meu texto e informar que já o enviei para os Sindicatos, todos os partidos com representação parlamentar, Comissão de Educação da AR, Presidência da República, Primeiro- Ministro e Órgãos de Comunicação Social. Pode ser que alguém tenha o bom-senso de emendar isto no próximo ano lectivo. Se não for assim eu e os que estão na mesma situação nunca mais trabalharemos perto de casa. Falo em 50 Km de raio, o que para mim já é bom, nem peço muito.
Tem toda a razão, amigo Rui Ferreira. Realmente, eu tenho umas regalias de se lhe tirar o chapéu. Mas devo dizer uma coisa: sei que a opinião pública não é muito favórável a esta coisa dos professores saltimbancos ou desterrados. Quando se fala nisso, em conversas informais, os mesmos que defendem o Governo, calam-se. Ou então, acabam por dar-nos razão. Mesmo os ferrenhos do PS.
E não mandou para o Provedor? Se calhar é o único que lhe responde e pode pensar seriamente no caso.
Já recorri em tempos e simpatia e solidariedade não faltou e, por acaso até coincidiu a emenda à lei, com a minha pretensão.
Duarte!
Mande para o Provedor. Tenho admiração pelo novo Provedor de Justiça. É um independente corajoso, sério e competente.
Obrigado pelas sugestões.
Acabei de enviar para o PROVEDOR DE JUSTIÇA
Caro colega, este caso é mais um em milhares, infelizmente.
Mas também já é velho (pelo menos 8 anos tem).
Temos de ter a atenção à legislação, pois lá referia as prioridades.
Nas negociações os sindicatos têm que referir estas situações.Acho aa prioridade deveria ser sempre a lista graduada.
Professor do 1º Ciclo, não é?
Querem lá saber, João Duarte!
Há mais de 30 anos, que isto assim anda ...
No tempo do Salazar, havia concursos mensais para lugares efectivos, e a maioria dos docentes ficavam colocados à porta de casa. Agora ... Volta ...
A enorme desvantagem actual José, é que anteriormente aguentava-se 1 ano e no seguinte, a vida melhorava um pouquinho ... Agora, são 4 anos a pastar. É tudo metido na "picadora" e sai "picadinho" ...
Pink Floyd ... Pink Floyd ...
Tendo o azar do José ...
É, de facto, uma violência emocional, física e financeira!
Como eu conheço tudo isso!
Anos a fio, José.
Houve tempos, que colegas nossos tiveram que "emigrar" (desculpem o termo) para a Madeira e Açores. Os do Norte iam para o Sul e os do Sul vinham para Norte. Como na tropa! Guia de marcha (alvará) ...
Sem esquecer, que os docentes do 1º Ciclo não vão para uma "Escolinha" na sede do concelho ou do distrito. Não.
Os docentes do 1º Ciclo, calcorreiam os caminhos tristes deste País, "borram" as botas na "bosta" dos bovinos (que bucólico!) e levam as vergastadas da intempérie, quilómetros a pé e de pé.
Conheço muito bem isso, José!
E sabe qual é a resposta da imensa demagogia para aí instalada?
- Faz-te bem, pá! Ficas rijo ...
E apetece mandá-los todos para aquela "parte" e "estoirar" um par de estalos. É ou não é?
Ah! E como se pode desempenhar um bom cargo profissional, nestas condições? Ilusionismo, magia ...
Mas, houve gente neste "blog" há tempos, que ousou dizer que os professores portugueses estão bem remunerados! Muito bem ... Uns tristes!
Que adianta ganhar 200 contos, se não chegam para as despesas?
Antes ganhar 100 e só despender 80!
Daqui, apenas lhe posso enviar a minha solidariedade e a minha incondicional compreensão.
Se isso vale para algo.
Boa sorte ... Às vezes surgem milagres.
Estou solidário com este colega.
Porquê que terminaram com os QZP? Porquê que colocaram alguns professores em Julho, quando ainda havia tantas vagas (Escolas) por atribuir em Agosto?
Sem dúvida, desrespeitaram os professores mais graduados…
Senhores do Ministério da Educação, seria assim tão difícil colocar os professores respeitando-se sempre, digo, sempre e em todas as situações: A PRIORIDADE DEVERIA SER SEMPRE A LISTA GRADUADA!!!!
Por favor, senhores da legislação! Respeitem a dignidade das pessoas!
O que se passou com o colega Duarte é muito injusto…
Duarte:
li o teu texto no blogue do Paulo Guinote... e acho que és o Duarte que eu conheço... isto se és o Duarte do ano do Pissara e do "Fiti"!
És? :)
Uma breve nota apenas para te demonstrar toda a minha solidariedade... eu que também andei uns anos "desterrado" por Cinfães e depois me radiquei em Coimbra, a partir de 1992. Como vês... sempre longe da minha pequena aldeia, na Guarda! Foi uma opção... com os seus custos!
Agora fiquei colocado no AGRUPAMENTO às portas de casa... depois de 3 anos num QE a 30 kms... o que também foi difícil (tenho uma filha com 6 anos)... e daí perceber bem o que é a viagem do Soito até Aguiar da Beira!
Uma parte do pessoal do meu ano... foi agora para Pinhel, Fornos de Algodres, alguns para o Teixoso, uma outra para Vilar Formoso... enfim... cada um para o seu lado!
Coragem! Um abraço!
Nelson Pires (NP66)
Olá:
Obrigado PdP, Rui V., Filipe e Nelson pela vossa solidariedade.
Para o Rui V. - tem razão, só que eu chamo-me João e não José.
Para o Nelson- Eu sou esse Duarte do ano do Pissarra, sim
Cumprimentos a todos
João Duarte
Caro colega, já fui desterrado e a minha esposa está numa situação semelhante à sua há 4 anos e vai estar mais quatro anos.
Fui um dos primncipais dinamizadores do Movimento dos Professores Desterrados. No concurso realizado há 3 anos a situação foi reslovida parcialmente ( não houve vagas suficientes) através da igualdade entre QZP e QE. Isto aconteceu numa reunião com a sra. Ministra. Os sindicatos pouco ou nada fizeram.
Neste concurso, os sindicatos nada fizeram ou então apoiaram as ideias do ME ( e sei do que estou a falar).
O ME recebeu um conjunto de professores ex-desterrados que foram ao ME apoiar esta legislação. Ou seja alguns daqueles que tanto defendiam a igualdade entre QZP e QE, passaram no anterior concurso a QZP e foram agora ao ME apoiar unicamente os QZp. Gente sem vergonha!
O ME, todos Sindicatos e eses três colegas (dá vontade de dizer os nomes dessa gentinha) que lá foram é que são os responsáveis por esta pouca vergonha.
Provavelmente nas próximas eleições a lista de colocação dos deputados do PS devem ser do último para o primeiro e proponho para os EE perceberem esta situação que a entrada na Universidade seja feita do pior aluno para o melhor.
Um desterrado sempre ao vosso dispor
Caro Fernando Machado:
Não sabia dessa situação. Estamos sempre a aprender. Mas há gente assim.
O que eu soube hoje é que, aqui no Distrito da Guarda, mais concretamente em Seia, segundo me contaram, houve colegas colocadas em Julho que se apresentaram e chegaram lá ao Agrupamento e disseram-lhe que não tinham lugar para elas. Voltaram à lista e, depois, foram colocadas em Agosto pertinho de casa. Cada vez compreendo menos. E qual é o problema? Da maneira que isto está o que interessa é ficar um ano num sítio e depois logo se vê. Mesmo que essa colocação em Agosto não fosse para 4 anos (em princípio é, mas pode não ser) sempre há hipótese de concorrer para o ano e voltar a tentar. Agora quatro anos (sujeitos a prolongamento) ou 8 anos (como a sua esposa) é que não cabe na cabeça de ninguém.
Enfim...
Muito bem, Duarte... só não sei se te lembras de quem sou! :)
Para o caso de não te lembrares (ou te lembrares, tanto faz)... podes dar uma vista de olhos no meu blogue e usares o endereço de email que lá está, ok?
Abraço
Nelson
Também eu sou professora desterrada a 240kms de casa.
Se concordarem assinem a seguinte petição
http://www.peticao.com.pt/professores-descontentes