Uma autêntica perda. Um texto do Luís Costa em torno da falsa autonomia das escolas

Nunca se falou tanto em autonomia das escolas. Todos os dias se acrescenta um pouco mais de autonomia e se fazem projectos para mais e mais autonomia. Autonomia, autonomia, autonomia… A autonomia é consensual e irreversível. No entanto, nunca os professores foram tão alienados com o trabalho, tão explorados e tão automatizados como agora. Esta autonomia é uma autêntica perda… de tempo, de respeito, de dignidade, de dinheiro, de estatuto social e profissional. Desconcentração funcional sem recursos não é autonomia. Bem pelo contrário! Vamos espreitar um pouco toda a autonomia das escolas? Bora lá!

Com tanta, tanta e tanta autonomia que tem chovido sobre as escolas, os professores passaram a fazer uma resma de tarefas burocráticas e ocas — umas mais e outras menos —, sempre à custa da sua missão essencial: leccionar. Os professores começaram a produzir regulamentos atrás de regulamentos, projectos de tudo e de nada, estatísticas até dar com um pau, planos disto, daquilo e daqueloutro, relatórios, memorandos, lançamento de dados na Internet, aulas de substituição, sala de estudo, biblioteca, montes de reuniões de toda a espécie e rebéu béu pardais ao ninho. Os docentes têm, hoje, muito menos tempo para preparar as suas aulas e para corrigir os trabalhos dos alunos. No entanto, estão encostados à parede, sob ameaças diversas, a troco de muito mais sucesso, que deve resultar, não do seu investimento na planificação e execução da sua acção lectiva — os congelados didácticos podem fazer isso —, mas de toda a autonomia mencionada. As escolas podem acabar com os planos de recuperação e de acompanhamento? As escolas podem acabar com os projectos curriculares de turma? As escolas podem deixar de fazer as tarefas que considerem ser inúteis e um entrave ao desenvolvimento de toda a sua dinâmica educativa? As escolas podem pagar todo esse trabalho extra a quem o faz, à custa do seu tempo pessoal? Ou esta autonomia resulta apenas para o lado do Ministério da Educação, que mantém toda a gente entretida, ocupadinha de borla, enquanto trama a vida aos mestres deste país com cataratas de normativos? Vejamos só mais um exemplo. Com o novo regime de gestão das escolas, os directores passaram a ter poder disciplinar sobre os seus colegas. Agora, os processos são encaminhados para um professor, que vai pagar caro o seu estatuto na escola: vai continuar com todo o trabalho que já tinha, vai assumir uma responsabilidade muito grande, correr riscos, ganhar inimizades, substituindo um inspector, que tinha — e tem — formação específica e era bem pago para realizar essa missão. Desta forma, o Estado, à custa da autonomia, deixa de pagar por um determinado serviço, diminui as necessidades de pessoal na IGE e contenta-se com um trabalho que, embora honesto, é forçosamente menos rigoroso, mas muito mais económico: é de borla. E se o desgraçado cometer uma falha na tramitação processual… Toma lá, que é para aprenderes!

Autonomia? Sim, mas a verdadeira, a honesta, a transparente, a realmente autónoma, não este embuste que nos põe todos os dias a realizar tarefas cujo sentido nos escapa absolutamente e que nos humilha, nos subalterniza, nos explora. ESTA AUTONOMIA É UMA EXCELENTÍSSIMA PERDA!
Foto: João Alfaro, editor do blogue JoaoAlfaro, e Miguel Loureiro, colaborador habitual do ProfAvaliação, junto à estátua do Luís de Camões, em Constância, após almoço de amizade de comentadores e leitores do ProfAvaliação. O Luís Costa, poeta, romancista, professor e editor do DardoMeu, foi muito lembrado.

11 Response to "Uma autêntica perda. Um texto do Luís Costa em torno da falsa autonomia das escolas"

  1. Peço desculpa mas não concordo. Não concordo e apresento um exemplo, na leitura do guião orientador das provas de aferição deste ano o ME deixa aos professores a autonomia no uso do tom de voz, da gestículação e da posição a ocupar na sala, obrigando apenas à redacção por si preconizada.
    É surreal tanta incompetência...

    Miguel Loureiro

    Há aqui um post dedicado à tua pessoa:
    http://peroladecultura.blogspot.com/2009/07/shall-we-dance.html

    Muitos beijinhos.

    Rui V says:

    Obrigado Ramiro!
    Obrigado Henriqueta!
    Obrigado Luís!
    Obrigado Miguel!
    Obrigado AB!
    Obrigado João!
    Obrigado Lelé Batita!
    Obrigado Luís Moura!
    Obrigado Cristina!

    Tenham uma doce noite ...
    Chegámos bem à Póvoa e a Fafe. Eu, o Miguel e o meu filho!

    Obrigado Dª MLR, porque sem a sua colaboração, nunca poderia ter conhecido pessoas tão boas na minha vida.
    Aqui, gravadas no meu coração.

    Um xi!

    Em@ says:

    Algum colega me pode dar uma ajudinha? De repente (acho ue desde ontem ou anteontem) deixei de conseguir visionar os vídeos nos blogs. Não percebo porquê. Já fiz uma actualização, mas continua igual.

    antecipadamente grata pela atenção que me possam dispensar. :)

    AB says:

    Obrigada RuiV! Agora quando leio os teus comentários já oiço a tua voz. Tudo ficou mais real.

    Um xi!

    Jane says:

    Acho que o Luis foi muito brando sobre este modelo de gestão.
    Provavelmente ele reflecte a realidade que o próprio Luis vive diariamente.

    Eu vivo uma realidade completamente diferente. Tão diferente e tão surrealista que ainda não consegui chegar ao perímetro que rodeia tamanha engrenagem. Mas já consegui perceber que é uma coisa demasiado terrível para ser suportável por um comum mortal.
    Como as pessoas podem transformar-se em autênticos monstros!

    Felizmente, vou ganhar asas e voar para outra margem.

    Deolinda says:

    Eu decalco as palavras do Rui Ferreira e acrescento outro exemplo de autonomia: cada escola pode definir prazos para entrega da ADD...
    :)
    já nem falo do caso exemplar de Paredes de Coura em que puderam decidir que, afinal, seria realizado o Desfile de Carnaval, na rua!

    A verdadeira autonomia reside na possibilidade de nos encontrarmos, onde quisermos, para nos conhecermos como gente, como cidadãos e como profissionais, porque a escola é um edifício que sem pessoas é um monte de pedra e o mundo desumanizado é um monte de resíduos...

    Este post é muito oportuno ea questão da autonomia é muito pertinente! O que é afinal a autonomia? Cada escola fazer como entende e deixar o caminho livre para cada director impôr as regras que entende, mesmo que elas sejam surreais e indignas? Nunca poderá ser esse o caminho da autonomia. Concordo que ela é necessária e que as DREs são um impecilho para a liberdade e para as verdadeira autonomia, que é necessária, mas, em minha opinião, nunca se poderá dizer: vamos implantar a autonomia e cada escola fará como entender, porque tem que se construir a cultura da autonomia, temos cultivar o que é de facto autonomia, talvez devamos é arriscar começar mas sempre sabendo por onde e para onde queremos ir! E só há um caminho - o da pedagogia como centro da nossa acção! Esse é o único rumo válido!

    Cristina
    Não está impedida de andar por aqui? Ou ficaste boas de vez?

    Olá Miguel!
    Estás a cuidar de mim e muito bem...