Testemunho de uma professora que se aposentou com penalização porque não suportou tanta afronta

Mas, depois da bonança, veio a tempestade. O PS ganhou as eleições  e o ME passou a ser dirigido pela equipa da Doutora Maria de Lurdes Rodrigues. De repente, um «lobo mau» surgiu na minha carreira. As afrontas aos professores começaram. Passamos a ser considerados uns mandriões que trabalhavam poucas horas. Ninguém nos perguntou o que fazíamos nas horas «não lectivas». Marcou-se esta componente no horário, sem qualquer critério, o que, para quem trabalhava a sério, veio roubar muitas das horas que podiam ser dedicadas à formação, ao trabalho em equipa e à preparação de aulas. Como queria continuar a ser uma boa profissional, não esmoreci, passei a trabalhar até altas horas, para preparar e organizar, convenientemente, a prática lectiva. Seguiu-se o concurso para professores titulares, a grande «bofetada» no meu esforço de todos os anos de trabalho.
Vinte e oito anos da minha carreira foram «deitados ao lixo», pois só contaram os últimos sete. Precisamente aqueles em que decidira deixar os cargos, para investir nas áreas curriculares não disciplinares, na minha formação e continuar a aperfeiçoar a prática lectiva. Fui penalizada por ter «objectivos individuais» antes da senhora ministra os exigir. Vi colegas, com metade do tempo de serviço, terem uma pontuação muito acima da minha e, se não fora ter feito a formação especializada e a escola ter vagas suficientes, não conseguiria chegar a professora titular. Não que me interessasse muito chegar a titular, não concordo com professores de primeira e de segunda, mas o que aconteceria a quem não o conseguisse, não era claro e tinha medo de vir a ser penalizada na aposentação.
Achei uma injustiça, mas continuei a cumprir os meus deveres profissionais. Fiz parte da equipa que elaborou o projecto do Plano de Acção da Matemática (PAM) da Escola e orientei uma Oficina de Formação para 14 formandos, no âmbito deste projecto, sem qualquer remuneração, apenas a troco de um bloco de 90 minutos, semanal, na componente não lectiva. Em cada semana as horas de trabalho cresciam. Com o novo modelo de avaliação do desempenho, veio uma sobrecarga de reuniões e fichas para fazer que não tinham fim e o ambiente da escola deteriorou-se. Não se trabalhava mais em grupo, não se discutiam questões pedagógicas, só a avaliação era o tema do dia. O Centro de Formação ia fechar e teve de se acelerar todo o processo da Oficina. Comecei a apontar as horas semanais que trabalhava para a Escola: quarenta, quarenta e duas, numa semana chegaram a ser cinquenta e duas! Impossível! Não conseguia conciliar vida profissional e pessoal. Quase já nem conseguia dormir! Ou deixava de preparar as aulas e de as dar em condições ou ia parar ao manicómio! Optei por pedir a aposentação antecipada. Perdi dinheiro, abandonei a profissão da minha vida, mas tive que dizer: «Basta!»
Maria Clotilde Lobo
A história

10 Response to "Testemunho de uma professora que se aposentou com penalização porque não suportou tanta afronta"

  1. Deolinda says:

    Conheço várias estórias semelhantes.
    Este ME deve ficar muito "satisfeito consigo próprio" sempre que consegue "expulsar" do ensino os professores mais velhos que "quase não davam aulas" e estavam "cheios de privilégios"...
    Um abraço a esta colega

    Setora says:

    Ó Clotilde, para que se deixou enredar na treta da avaliacão?

    Logo na primeira reunião em que se iam discutir grelhados, chegados ao ponto declarei que não tinha nada a ver com aquilo e abandonei airosamente a sala. Infelizmente ninguém me seguiu mas nunca mais me incomodaram com a coisa. Ainda lhes passou pela cabeça nomearem-me avaliadora mas também me safei alegremente.

    Irei sair com penalização. Quando chegar o momento em que pela antiga norma sairia, sairei. Que venham os mais novos.

    Um abraço, pois.

    Vemos, ouvimos e lemos...

    Rui says:

    Fez muito bem!
    Se tivesse a idade exigida para a aposentação (e é o que farei assim que chegue lá, estando a contar respectivos minutos!), mesmo que tivesse de perder 50, 60, 70, 100 contos por mês, não hesitava!
    Preferia deixar de comer carne de vaca e comer carne de porco, deixar de beber uma cerveja e beber água, deixar de comer um chocolate e comer um pão, deixar de comprar uma revista e ver um pouco mais de televisão, deixar de passear e ficar mais por casa, a morrer "assado" com esta escravatura em pleno século XXI! Aliás, fico admirado comigo! Como consigo aguentar esta pouca vergonha e não ter já procurado outra solução para a minha vida. Não é possível ter uma conversa "decente" com os meus filhos, conviver alguns minutos com os meus amigos, visitar os meus familiares. Não consigo dormir mais que 5/6 por dia. Não consigo deitar-me antes das 2/3 da manhã. Só gente sem humanidade (no mínimo) consegue fazer isto! Mas vão ter os resultados desta vilanagem psicológica no próximo dia 27 de Setembro de 2009. E garanto, podendo, que farei parte da "caça às bruxas" que a minha dignidade determinar. Com muito gosto!

    Rui says:

    Para que conste ...

    http://lisboa-telaviv.blogspot.com/2009/07/as-sonsas-sao-as-piores.html

    Sem palavras ...

    Deolinda says:

    Para quem, como eu, já está com sintomas de privação por falta de contacto com os "pestinhas", podem digitar e ouvir:

    Bruno Aleixo na Escola

    CHRIS says:

    Concorreu para titular, não concorreu? Então agora não se queixe.

    Rui says:

    Deveria dedicar-te um textinho, "pazinho" ... Mas, não o vou fazer. Não mereces tanto ... "pazinho".

    Fica-te com esta, que já tem barbas: "Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães!"

    Rui says:

    Eu não espero pela aposentação. Também me fartei de tanta e tão completa falta de respeito. Um dia descobri que eu não era obrigado a aceitar.
    Portanto, saio. Não sei o que vou fazer, não sei qual vai ser o meu futuro, mas o gang que está no ME não manda mais em mim, nem goza mais comigo!

    Rui V says:

    Novo Rui na conversa. Mas não é "clone". Tem perfil e tudo. Por isso, tenho que mudar algo no meu nome. E vou recolocar o meu perfil, evitando equívocos. E até concordo com o que disse o Rui (outro).