Testemunho de professora sobre as injustiças criadas pelas regras dos concursos
Gostaria de deixar aqui o meu desagrado e até indignação pela injustiça dos consursos que se aproximam, designadamente a prioridade dada aos destacamentos.
Sou professora do Quadro de Escola e lecciono há 23 anos completos, porque sempre me sujeitei a trabalhar longe de casa . Já estive a trabalhar em várias zonas do país, incluindo o Algarve e até Açores, para poder ganhar tempo de serviço e ficar cada vez mais perto de casa. Era essa a expectativa.
Todos os sacrifícios que fiz tinham como objectivo que eu pudesse ficar um pouco mais perto de casa, à medida que os anos de serviço se iam acumulando.
Agora que estou a meio da minha carreira, sinto-me frustrada, pois tenho muitas colegas que sempre ficaram perto de casa: apenas concorriam aos "mini-concursos".
Para piorar mais ainda a situação, este ano decidiram fazer outra GRANDE INJUSTIÇA nos concursos: os QZP , que se encontram muito depois de mim na lista de graduação ( 500/ 600 e até mais lugares), poderão ficar numa escola ao pé de casa a trabalhar e eu receio que não consiga destacamento por Aprox. à Residência e ficarei (injustamente) muito longe de minha casa. Tenho filhos pequenos, um deles com 11 meses, não recebo qualquer subsídio de deslocação e todas as expectativas que depositei nesta profissão, agora ficam aquém do que eu esperei para mim e minha família.
Todas as profissões vão melhorando à medida que os anos de serviço vão aumentando, mas no nosso caso parece que é melhor ser o nº 4200 na lista de ordenação do que ser o nº 1200.
Eu pergunto: como irei fazer a minha formação contínua no próximo ano, se ficarei colocada a 175 Km de casa, para onde vou regressar diariamente, completamente exausta, e tenho filhos pequenos que precisam de mim, pelo menos à noite.
Ainda falam em apoio às famílias? E nós não podemos ter familia?
Tenho uma colega minha que foi este ano espancada por 2 alunos e o seu carro destruído e o que recebeu do Ministério?
Nem subsídio nem apoio. Nada.
Ela está no Algarve a trabalhar e a sua família (incluindo filhos de 7 e 10 anos) estão entregues aos avós maternos, que residem em Viana do Castelo. Longe de casa e de todos os que ela ama, resta-lhe uma série de medicamentos para curar a depressão, que entretanto apareceu, como seria de esperar.
Em 23 anos de profissão, é a 1ª vez que reclamo acerca da minha situação profissional, pois adoro o que faço e os meus alunos tb gostam das minhas aulas. Se for obrigada a sair do ensino, a escola portuguesa irá perder uma profissional deveras dedicada. Mas não quero acabar como esta colega que referi há pouco. Quero poder acompanhar a educação dos meus filhos, sem ter de me sujeitar a estas condições.
Gostaria muito que esta minha mensagem fosse lida e fosse feita uma reflexâo acerca de tudo o que tem sido feito no ensino português até ao momento.
Professora que não quer ser identificada
Foto: Varanda de edifício de Barcelona construído por Gaudi
Olá Ramiro, adoro Gaudi e Arte Nova!...
Olá! Também eu. Barcelona é divinal por causa de Gaudi. Também por causa dele. Vou publicar mais fotos de Arte Nova - Barcelona - nos próximos dias.
Agradeço Ramiro.
Tens do Parque Guell? Em digital não tenho.
Nem sei o que escrever para comentar a mensagem da colega. Felizmente para mim, embora tenha mais ou menos esse tempo de serviço, estou efectiva há muitos anos na mesma escola e a cinco minutos de casa. Mas sinto-me chocada quando leio testemunhos semelhantes de colegas que são tratadas(os)como coisas, sem família, sem vida pessoal, como se não fossem ninguém. Não vejo isso em classe profissional alguma e continuo sem compreender o que teremos feito à sociedade para, neste ano lectivo, sermos tão maltratados, espezinhados, reduzidos a malfeitores da pior espécie. Será que me passou alguma coisa ao lado e eu não percebi? E durante quanto tempo mais vamos ter de nos sentir assim?
Colega, tem todo o meu apoio espiritual e pode crer que a minha revolta será sempre sentida, cada vez que leia que uma criança não pode ter a sua mãe, porque é professora e trabalha a centenas de quilómetros.
Um abraço
Romicas
Barcelona é linda, Gaudi, fantástico!
Mas perante o sofrimento relatado na primeira pessoa, até o belo muda de forma, de cor…e de sentido…
Mundo cão, em que tudo conta, sendo que o que menos vale são as pessoas…
Culpa da sociedade? Da natureza humana? Da natureza cultural-humana?
E então, sublimamos as injustiças, abafamos os lamentos que ecoam e escorrem como seivas vivas pelas gélidas paredes das catedrais da vida des (humana)…
JM
Colega:
Dizer-lhe que também penei para me efectivar e que corri o Pais de Norte a Sul, não lhe servirá certamente de consolo.Sei o que foi sofrer ter estado um ano separada do meu filho que na altura tinha acabado de fazer 3 anos. Ficou com o pai e os meus pais, mas eu sofri horrores. Não gozava o fim-de-semana a pensar na tortura que ia ser a semana longe e durante a semana ansiava o fim-de-semana. Restou-me desse tempo a relação boa que tive com os alunos, colegas e amigos que fui arranjando nesse exílio laboral.E sabe porque ficava colocada longe de casa? Porque, na altura, os horários completos nem iam a concurso, ficavam na gaveta para os amigos que só concorriam em mini-concurso...
A minha situação alterou-se quando fiz um recurso por causa dessa mesma situação.Com a ajuda de um advogado para as coisas irem bem feitas.Na altura deram-me razão (mas passados 5 meses) e a possibilidade de permutar, mas não consegui arranjar quem em Março quisesse deixar o Algarve. Já que tinham aguentado até ali aproveitavam e faziam um bocadinho de praia.
Milagrosamente a partir daí fiquei sempre perto de casa.
Para além de tentar a possibilidade de permutar eu só vejo uma maneira de resolver esta situação: no dia 27 de Setembro oferecer um belo para de patins a estes fulanos.
No entretanto desejo-lhe muita força.
Ramiro:
Gosto do Gaudi e adoro Barcelona. Ainda bem que puseste aqui o Balcão e vais continuar a ilustrar os posts com fotos de Arte Nova 8cpmprei há temos um espelho bem bonito!)
Este artigo ... enfim!
Colega, quer um conselho?
Emigre! Fuja! Desapareça!
Olhe, vá para Barcelona.
Eu prefiro Madrid. Adoro o Prado. Não é o prado, erva ... camelo!
É o Museu!
Fuja!
Concorra para a Madeira! Já passou ...
Sinceramente!
Eu não percebo, como há gente que (ainda) gosta de ser Professor(a)!
Feitios ...
Pago 100 contos por mês, até ao fim da vida (será que duro um mês?), a quem me der a Reforma, já!
Mas quero o papel assinadinho e tudo direitinho.
Insanidade mental não dá reforma antecipada?
Tentando desmontar o "esquema" e tendo em conta que o objectivo último é o da municipalização, vejamos:
1. Em tempos não muito remotos, na tropa, os do Norte iam para o Sul e vice-versa, para desenraizar os mancebos;
2. Depois do 25 A, chegou-se à lógica colocação dos recrutas o mais perto das suas residências e não morreu mais gente por isso;
3. Depois do 25 de Novembro, quem quisesse sair da tropa antes do tempo, bastava dar indicações de que não era da cor do partido do Vasco Gonçalves;
4. No ensino, quando comecei a lógica era a mesma, se calhar só por mimetismo;
5. Mais tarde, chegou-se à conclusão de que se os professores ficassem mais perto, estariam mais motivados e criaram-se os Quadros de Zona e não veio mal ao mundo;
6. Desde que chegou o neoliberalismo (já vou apanhar porrada, mas agora os governantes já são anti) uma das bandeiras mais utilizadas, é o que chamam de MOBILIDADE, que traduzindo, querem convencer-nos de que quanto mais longe de casa a trabalhar (de preferência no estrangeiro) mais felizes seremos, menos os filhos deles.
7. Este ano, com estes concursos, a MOBILIDADE ganhou foros de desumanidade, pela perfeita alienação e inconstância de muitas colocações, quer pelos 4 anos, quer das que vão resultar das bolsas de supervenientes na Escola/Agrupamento (horário zero);
8. Mais uns tempinhos e os professores até vão pedir a municipalização do ensino, das colocações dos professores, porque se tornará inevitavelmente no processo mais expedito para a proximidade da casa e do emprego.
9. E assim, um dos objectivos oculto da sociedade neoliberal será concretizada, "pacificamente" pela criação da ocasião, que ajudará o ladrão.
Pode parecer uma teoria da conspiração, mas daqui a pouco VERÃO!
Colega,
como a compreendo! Também eu tenho um filho pequeno (3 anos) e fui colocada bem longe de casa. Lá para o fim de Agosto verei como os colegas muito atrás de mim nas listas são colocados perto de minha casa, que é também já a várias centenas de Km da minha cidade de origem... Acima de tudo, é a injustiça que me revolta. Uma injustiça arbitrária e que tão facilmente poderia ser revertida.
Se não fosse a crise, podem crer que me iria embora. Estou farta!
Apesar de ser pessoa discreta, já pondero a hipótese de uma greve de fome. Talvez nos devessemos juntar, dado que me parece que somos muitos e juntos podemos fazer a diferença.
SB
Sou QZP. Não concorri (a QE/A) para escolas exteriores ao meu QZP que ficassem longe o suficiente para "obrigar" o meu filho (10 anos) a mudar de escola/amigos e zona a que se habituou nos últimos 5 anos e onde residimos - não porque assim o tenha escolhido, mas porque a profissão e colocações a isso me obrigaram. Não estou colocada na cidadezinha onde resido: nos últimos 3 anos fiz, diariamente, 60 kms e nos dois anteriores a esses, fazia 30. Apenas um ano consegui ficar na área onde residia na altura. Os restantes foram de mala (e filho) às costas, 470 kms, 120, 130, 150. fui obrigada a deixar a cidade onde residia e de que tanto gostava. Sempre em mente a estabilidade que pensava conseguir por volta dos meus 35 anos de idade mesmo que numa zona que não a que havia elegido como minha... com quase 40 sinto uma instabilidade maior do que alguma vez senti. Sinto pelo meu filho, que não sabe ainda que escola frequentará no próximo ano ou sequer quem o irá levar ou buscar à escola, já que os horários da mãe raramente o permitem, a quem não consigo oferecer a possibilidade de ter rotinas, jantar todos os dias com a mãe, frequentar desportos, aulas de música, instituto de inglês... Basicamente, consigo dar-lhe o meu amor e carinho (tantas vezes de fugida!) e pouco mais... Não consigo acompanha-lo sequer nos trabalhos escolares. Felizmente, tudo corre bem: é bom aluno, bem comportado e muito amigo da mãe. Difícil? É. Muito. Tem dias que apetece desabar... Mas não resolve nada.
São milhares as professoras-mulheres e mães coragem, tantas vezes sem tempo para os filhos, e que continuam a ser professoras, amigas, conselheiras, protectoras dos seus alunos, profissionais dedicadas, sempre de sorriso na boca e palavra amiga. À Lúcia, mãe de duas lindas meninas deslocadas de casa, marido e pai, com quem me cruzei no norte do país e a todas as outras, que sempre me servem de exemplo, um grande bem haja. Sem vós, muitos de nós, cidadãos deste país, seríamos muito mais pobres. Em conhecimentos, em cidadania, em coragem e em afectos.
Quanto aos concursos... talvez sejam os piores de sempre. E a injustiça, infelizmente, chegou a todos. Menos para quem os regulou, de forma tão leviana, tal como fez com (quase) tudo o que respeita à educação.
Desculpem lá a pontuação mal feita e qualquer outra coisinha... mas venho aqui sempre "a correr" !