O filósofo José Gil explica por que razão os professores foram tão atacados por políticos tresloucados

Sumariamente, pode dizer-se o seguinte: a dupla vertente da governação Sócrates que evocámos atrás - por um lado, o centralismo autoritário, regulador, fazendo intervir o Estado nos mais ínfimos mecanismos da vida social; por outro, a vontade de «emagrecer o Estado», de reduzir o seu peso na sociedade civil, «modernizando»o seu funcionamento, leva a que os efeitos das reformas, e em particular a do sistema educativo, possam ser, na substância, puramente superficiais, não produzindo mudanças de fundo, e, na forma, imperativos pesadíssimos, tarefas insuportáveis e inexequíveis. Porquê? Porque - e refiro-me aqui ao Estatuto da Carreira Docente, ao Estatuto do Aluno e à avaliação dos professores - a vertente autoritária e super-reguladora do Estado exerce-se fundamentalmente e quase exclusivamente na forma, na burocracia, nas centenas de documentos, formulários, regulamentações que os professores devem estudar, preencher, horários extraordinários que devem cumprir, etc.,sem que os conteúdos do ensino, a substância da relação de aprendizagem professor-aluno seja tratada. Quem examine em pormenor toda estaextraordinária burocracia, que já é pós-kafkiana, a que estão submetidos os professores fica com a ideia de que uma espécie de delírio atravessa quotidianamente os conceptores e decisores do MNE. (....) (p. 54)
José Gil (2009). Em busca da Identidade. Lisboa: Relógio D`Água

1 Response to "O filósofo José Gil explica por que razão os professores foram tão atacados por políticos tresloucados"

  1. José says:

    José Gil: um homem corajoso, clarividente, lúcido e ilustre pensador, solidário com a classe docente e que, do ponto de vista conceptual, brilhantemente tem apreendido as explicáveis e as não decifráveis razões que subjazem a um ataque nunca visto a um corpo essencial à manutenção da cidadania, da cultura e de níveis de conhecimento em patamares de razoabilidade, adequados ao actual desenvolvimento social e civilizacional.
    As “ilusões” da Filosofia, versus as desilusões da “realpolitik”…
    Um agradecimento sentido a José Gil.

    JM