50 X 50 X 50. Um Texto do Luís Costa sobre a sucata que dá pelo nome de planos de recuperação

Todos sabemos que certos documentos apenas foram imaginados, por uma mente brilhante, para induzir sucesso artificial no sistema: reter um aluno é, hoje, um calvário de trabalho que resulta num montão de papel, à custa de muito tempo desperdiçado. Tenho a certeza de que muitos directores de turma trabalham mais para reter alguns alunos — e que coragem é preciso ter — do que os próprios durante todo o ano lectivo: são planos disto e daquilo, relatórios, pareceres, registos de tudo e mais alguma coisa… Um inferno, com o aço do cutelo da Direcção Regional a brilhar, lá no alto: “Tem de estar tudo, tudo, tudo muito bem justificadinho, senão…”

Há bem pouco tempo, eram registadas, numa simples acta, as medidas consideradas prioritárias para a recuperação dos alunos. E isso bastava: era simples, eficaz, e não roubava tempo aos professores, que sabiam muito bem o que tinham de fazer no período seguinte. Actualmente também sabemos, e não precisamos de tanta burocracia para delinearmos a nossa acção, mas alguém, que nos considera uns desocupados e nada percebe de educação, passa os dias a magicar novas formas de terapia ocupacional: verdadeiros séquitos que acompanham D. Acta, zelando morosamente pelo sucesso estatístico. Parece que alguém quer que não tenhamos tempo para pensar.

É preciso dizer com todas as letras que os Planos de Recuperação — vorazes consumidores de paciência, de inteligência e de espírito crítico — são a coisinha mais estúpida e estupidificante que aterrou nas escolas, nos últimos 35 anos: lá mais para trás, havia aquelas frases que, obrigatoriamente, deviam ser inseridas em todos os manuais aprovados. Estes “aeroplanos” são autênticos quistos sebáceos que os professores manuseiam com indiferença administrativa, e tratam com o desprezo que eles merecem.

Por que motivo quererá o Big Brother que lhe enviemos dados inúteis sobre coisas inúteis? Terá ele preocupações que nós nunca compreenderemos, ou é disto que ele se alimenta?

6 Response to "50 X 50 X 50. Um Texto do Luís Costa sobre a sucata que dá pelo nome de planos de recuperação"

  1. Cristina says:

    Ainda bem que há quem consiga expressar o que nos vai na alma! menos tempo em burocracias inúteis e mais tempo a trabalhar para os alunos: é disso que precisamos.

    José says:

    Se algumas dúvidas existissem...está tudo dito!...
    Totalmente de acordo, Luís. Impecável!

    JM

    Deolinda says:

    Pois...são perguntas muito interessantes, cuja resposta adorava conhecer...
    Vou arriscar uma explicação mística ou naïf ou mágica:
    -Se o Professor elabora Plano... aluno recupera!...:)

    Parabéns!

    Miquelina says:

    Só para confirmar: a acompanhar a acta da minha direcção de turma foram 21 (!!!!) folhas de papel, entre relatórios de apoios, de planos de recuperação, planos de acompanhamento, avaliação extraordinária (e só reprovou 1 aluno!) NACs, avaliação de PCT, relatório circunstanciado de aluno com NEP... É absurdo!

    Elisabete says:

    Mais ridículo ainda é o caso dos alunos sujeitos a avaliação extraordinária. Transitem ou não, deverá ser feito um relatório final a explicar o porquê.

    Sim, o Plano de Acompanhamento ou de Recuperação consoante os casos não chega. O Projecto Curricular de Turma, o Plano Individual, as actas, os registos dos contactos com os encarregados de educação, os Planos de aulas de recuperação, os relatórios das ditas mais a avaliação das aulas de recuperação e outras estratégias…

    Bem já me perdi, e de certo ainda me falta algum papelito indispensável a uma boa prática docente e à avaliação que lhe é inerente.

    Hoje é minha opinião que para tanta competência que nos é exigida o cargo de Director de Turma deveria ser atribuído exclusivamente a professores titulares.

    Alias, ainda não percebi o porquê de a função de DT ou de Professor Bibliotecário poder ser exercida por um professor de segunda.

    Será que alguém me consegue explicar?

    Ana says:

    O ensino continua no caminho do ridículo!

    É incrível o tempo perdido a preencher toda essa documentação. Perde-se tempo a preenchê-la, a imprimi-la e depois estas ainda é sujeita à aprovação do Conselho Pedagógico!

    Ah, de frisar que o Conselho Pedagógico encontra sempre um defeito num dos documentos, e que por esse motivo temos que voltar a fazer tudo outra vez.

    Qualquer dia temos que fazer a rotina diária dos alunos (a que horas se deitam, acordam, quantas vezes vão à casa de banho, quantas vezes espirraram...) Enfim...RIDÍCULO!!!!