5 notas sobre as conclusões e recomendações do Relatório da OCDE

1. O relatório Teacher Evaluation in Portugal OECD Review - Assessment and Conclusions, elaborado por Paulo Santiago, Deborah Roseveare, Gonnie van Amelsvoort, Jorge Manzi and Peter Matthews, merece ser lido pelo que defende e, sobretudo, pelo que critica.
Não partilho da fé que o Relatório deposita no reforço do CCAP (pág.10). Composto por pessoas que, salvo uma ou outra excepção, não têm formação especializada em avaliação, não vejo como conceder-lhes credibilidade. Alguma que tivessem, perderam-na no último ano pela colagem que fizeram a quem os nomeou.
2. Gostei de ler, na pág. 10, que a aposta na motivação dos professores é essencial para garantir um processo de avaliação credível que conduza a melhorias no ensino.
Parece-me sensata a recomendação de alargamento do período de transição de forma a que as escolas ganhem "know how" em ordem a poder ser construído um modelo mais robusto (pág.10), mas não me parece possível que a construção de um modelo mais robusto possa ser feita tendo como ponto de partida o actual modelo.
3. Gostei de ler a crítica a dois elementos centrais no modelo criado pelo decreto regulamentar 2/2008: associação dos resultados dos alunos à avaliação de desempenho e ausência de elementos externos na equipa de avaliadores.
4. Acho estranha e perigosa a ideia de que deve ser dado um maior papel aos inspectores no processo de avaliação de desempenho (pág. 9). Quem conhece a IGE sabe que, regra geral, os inspectores não possuem conhecimentos e competências pedagógicas credíveis. Os inspectores são, regra geral, ex-professores, que fugiram da sala de aula porque não gostavam nem sabiam ensinar. Fora do processo pedagógico há longos anos e sem interesse directo nas áreas curriculares e disciplinas, o envolvimento dos inspectores no processo de avaliação de desempenho só pode reforçar o seu carácter burocrático e punitivo. As atitudes e comportamentos punitivos da IGE retiraram-lhe credibilidade entre os professores. Os inspectores são vistos como polícias pelos professores e directores e há muito que perderam a dimensão formativa. Tornaram-se um corpo de polícia das escolas. Por não saberem nada de avaliação de professores e muito pouco sobre os saberes curriculares e disciplinares, devem ser afastados do processo de avaliação de desempenho. A recomendação do Relatório da OCDE a respeito do envolvimento dos inspectores só pode justificar-se com o desconhecimento do que é a IGE.
5. Parece-me sensato recomendar que o painel de avaliadores tenha elementos externos e que os avaliadores tenham uma certificação em avaliação de desempenho adquirida através de uma formação pós-graduada sólida e que passem por uma processo de acreditação (pág. 9). Uma coisa dessas demora anos. Justifica-se, por isso, o período de transição seja alargado e que durante esta fase a avaliação de desempenho não tenha consequências na progressão na carreira. Eu vou mais longe. A avaliação formativa, sem carácter punitivo, deve ser realizada por avaliadores internos. A avaliação de desempenho, com incidência na progressão na carreira, deve ser feita apenas por avaliadores externos e obedecer a um ciclo longo que coincida com o período de acesso aos dois escalões mais elevados. Num caso e noutro, o resultado da avaliação de desempenho não deve andar associado a prémios pecuniários.
Por falta de espaço, não me pronuncio agora sobre a ideologia neo-liberal, conducente à defesa da mercadorização do acto pedagógico, que contamina todo o quadro conceptual do Relatório. Outros já o fizeram e remeto para eles.
Foto: Varandas de Gaudi, em Barcelona
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10 Response to "5 notas sobre as conclusões e recomendações do Relatório da OCDE"

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    Ramiro
    Obrigado pelo sumário, que está bem feito e nos poupa o trabalho de ter que ler aquilo tudo.

    Estou neste momento a ouvir na RTP1, que hoje a Sra. Ministra já vai apresentar nova proposta de modelo de ADD, logo a seguir ao Relatório, que de certeza ainda não tinham lido e devem tê-lo preparado esta noite...

    Não entendo porque é preciso fazer estes estudos, quando qualquer pessoa mediana, se fizesse a síntese de tudo que foi dito em todos os abaixo assinados, pela Plataforma e sindicatos, pelos Movimentos, pelos Blogueres e nas opiniões de especialistas e políticos, chegaria às mesmíssimas conclusões.

    Há uma coisa que há muito queria dizer sobre qualquer processo que venha a ser implementado, que é sobre a dispensa da avaliação para muita gente (lá vou levar porrada), concretamente quem já tenha XX anos de serviço e que provou ter competências para o desempenho, para os que o ME reconhece essas competências (sejam Titulares ou pelo desempenho de outros cargos de supervisão) e sobretudo os que forem capazes demonstrarem que são Excelentes e que deveriam passar logo para avaliadores, internos ou externos. Isto porque quem é reconhecido ou mostra que é Excelente, não é excelente naquele período de avaliação, é Excelente e mais nada, e caso a sanidade mental e intelectual não tenham quebras por doença, continuarão a ser o que mostraram que era "Professores Excelentes", porque a excelência não é intermitente.

    Neste Relatório, como ontem disse num outro comentário, a análise é feita apenas na perspectiva da educação, professores/competências/carreira, sem se falar da legalidade e da demonstração da bondade e da infalibilidade de qualquer avaliação, num tempo em que os processos avaliativos são embrionários, experimentais, teóricos, investigativos e pouco mais.
    Todo o erro é possível e todo o erro é irreparável.

    Martins says:

    Miguel, será que li bem?

    "qualquer pessoa mediana, se fizesse a síntese de tudo que foi dito em todos os abaixo assinados, pela Plataforma e sindicatos, pelos Movimentos, pelos Blogueres e nas opiniões de especialistas e políticos, chegaria às mesmíssimas conclusões."

    Se eu ontem de manhã te pedisse para fazeres a tal "síntese" achas mesmo que seria algo parecido com o relatório do
    tal "Eng.ºElectrotécnico" como alguns já começaram a chamar?

    Porra que grande pirueta Miguel, só é pena não existir pistas de gelo em Portugal.

    Martins
    Se quiser mando-lhe as análises feitas ao processo, por este humilde professor, com a ajuda e conivência de colegas tão humildes quanto eu.
    Se esteve atento e esteve, às conversas que por aqui passaram, noutros blogues, da Plataforma e de fazedores de opinião, compreendia, como acabou por compreender, que todas as análises (contestações) diziam tudo isto, na perspectiva de quem as proferia. O ME, fazia, faz e fará na sua (dele) perspectiva, mas teve o azar de não acertar, porque "quem falha uma preparação, prepara um falhanço".
    Piruetas e cambalhotas estamos a ver agora a ser dadas por membros do Governo, Ministérios em geral, menos no ME, o que demonstra o não reconhecimento do falhanço.

    A saga parece continuar…

    Não obstante algumas críticas “brilhantes” (já sabidas), a propósito de que o modelo implementado deverá servir como uma boa base de trabalho para o seu desenvolvimento, o resumo do relatório refere na sua pag. 10, “… to captalise and consolidate the expertise already developed within schools”, pergunto eu, que expertise? Falamos da competência dos que, mais papistas que o papa, pariram aquelas fichas magníficas que temos visto?

    Em minha opinião, continuamos a centrar o discurso numa dimensão que, para além de nada explicar, mantém acesa toda uma discussão falida. Duas notas sobre o relatório: 1º Os estudos da OCDE partem de um pressuposto que, infelizmente, não corresponde à realidade nacional, falo de uma organização social e cultural própria dos seus países membros. 2º O seu conteúdo protagoniza um pouco mais do mesmo, a OCDE diz, e bem, que é necessária uma cultura avaliativa, a MLR diz, e bem, que esta é necessária, e os professores dizem, já muito cansados é certo, ela é absolutamente necessária.

    O discurso deverá pois passar para a dimensão OPERACIONALIZAÇÃO, porra. Avaliados com justiça. Como? Eu explico. Avaliadores credenciados e externos a aplicar um protocolo que assente nos princípios que o deve reger, objectivo, fiável, válido e exequível, cujo principal objectivo seja o formativo.

    Elenáro says:

    Ramiro Marques:

    Um excelente post com qual (pela primeira vez creio) concordo com a 99%. Há ali 1% do qual eu tenho desconhecimento de causa e portanto não concordo nem discordo. Mas gostei muito do seu post, de facto, em especial do 5º ponto.

    Miguel Loureiro:

    Só uma pequena coisinha em relação à excelência ad eternum. Não acha que haverá altura das nossas (estou a generalizar) vidas por diversas razões em que nós estamos mais capazes de fazer isto ou aquilo e que quando não estamos o trabalho não sai tão bem quanto é normal? Isto sem ser por doença porque isso referiu o Miguel. Não seria mais proveitoso haver sempre avaliação?

    Rui Ferreira:

    Não li o relatório (ainda) mas acho que a expertise que fala na sua citação é referente à experiência ganha pela prática do que já se fez e não pela experiência em fazer os modelos teóricos. Penso que o relatório não se estava a referir às competências de quem fez os modelos mas sim de quem os preenche e põe em prática. Digo eu vá.

    Elenáro

    Antes do mais, quero dizer-lhe que ontem aprendi umas coisas com uns comentários seus, apesar de olhos não serem os mesmos.
    Sobre aquilo da burocracia, claro que sou estupidamente contra, mas se alguém tem que fazer, não me custa nada (mas custa) fazê-lo em vez de outrem, por amizade, mas a minha vida mental é criar e não recrear...

    Sobre a pequena coisinha em que discorda comigo hoje, acho que haverá alturas das nossas vidas, que por diversas razões não estamos no nosso melhor, mesmo sem ser por doença (mas é tudo por doença), mas qual é o génio (sobretudo eles) que não passa por momentos desses, sem perderem a genialidade, ou no nosso caso a Excelência? Conheço situações, por exemplo na arbitragem de várias modalidades desportivas de alta competição, em que os de categoria internacional é que avaliam os outros.
    Repare! O ME entendeu que havia uma categoria de professores, que intitulou de Titulares, reconhecendo-lhes "competências", até para avaliar os outros colegas (não quero discutir essa coisa dos Titulares, embora seja, mas prontíssimo a abdicar) e depois vem o próprio ME dizer que esses "competentes" têm que ser avaliados? Sou eu que não entendo, ou a lógica é uma batata?
    Finalmente, quanto menos pessoas (docentes) precisarem de ser avaliados, não haverá melhor indicador do que esse para a aferição do sistema.

    Excelente, Ramiro!
    Muito bom texto!

    O alargamento do período de transição recomendado, "de modo a que as escolas ganhem "know how" em ordem a poder ser construído um modelo mais robusto", tem duas ideias subjacentes: 1) necessidade de outro modelo, não é este adaptado; 2) É nas escolas e por isso com os professores, que deve ser construído esse modelo mais robusto!

    A ideia de que este modelo pode servir como ponto de partida e que portanto, será para manter adaptado, não é correcta. O que se pode aproveitar,e deve, foi toda a reflexão que já foi feita sobre avaliação para a construção de um novo modelo. Qualquer trabalho que se faça que não tenha como primeiro objectivo a avaliação formativa e que não esteja directamente ligado à dimensão pedagógica e dela parta e ao trabalho com os alunos, dentro da sala de aula, será falhado à partida!

    O respeito pelos professores, pela figura do professor, e também pela sua motivação, é fundamental! Não está em causa o que há a mudar na escola, o que há a mudar na classe, todos nós podemos fazer melhor em cada dia e temos decerto muitas coisas a melhorar e muito que crescer profissionalmente, está em causa a forma como se faz e como se valoriza o que já se faz de bom e de como tal pode ser usado para construir o futuro! Essa é umas das questões centrais deste processo! Aliás, uma das questões centrais é e foi o processo...

    Elenáro says:

    Miguel Loureiro

    Entendo o seu ponto de vista. Se já nos reconheceram mérito para quê andar constantemente nesta luta de provar que sou "bom". Especialmente quando tenho que provar aqueles que foram os responsáveis pelo reconhecimento. Entendo isto perfeitamente e até posso dizer que não discordo. Faz sentido.

    Mas, admitindo que é criada uma avaliação com isso em mente, não poderá ser esta também um meio de "incentivar" à manutenção dessa mesma excelência?

    Elenáro says:

    Ainda uma coisa que me esqueci no comentário anterior. Fico feliz por o meu contributo não ter sido em vão Miguel.