O poder curativo dos professores. Um texto de João Ruivo

Ser professor acarreta uma profunda carga de utopia e de imaginário. Com o lento passar do tempo e da memória colectiva, gerações após gerações ajudaram a elaborar a imagem social de uma profissão de dádiva absoluta e incontestável entrega.

O poder simbólico da actividade docente leva a que os professores sintam sobre os seus ombros a tarefa herculeana de mudar, para melhor, o mundo; de traçar os novos caminhos do futuro e de preparar todos e cada um para que aí, nesse desconhecido vindouro, venham a ser cidadãos de corpo inteiro e, simultaneamente, mulheres e homens felizes. É obra!

Ao mesmo tempo que a humanidade construiu uma sociedade altamente dependente de tecnologias dominadoras, transferiu da religião para a escola a ingénua crença de que o professor, por si só, pode miraculosamente desenvolver os eleitos, incluir os excluídos, saciar os insatisfeitos, motivar os desalentados e devolvê-los à sociedade, sãos e salvos, com certificação de qualidade e garantia perpétua de actualização permanente.

O emergir da sociedade do conhecimento acentuou muitas assimetrias sociais. Cada vez é maior o fosso entre os que tudo têm e os que lutam para ter algum; entre os que participam e os que são marginalizados e impedidos de cooperar; entre os que protagonizam e os que se limitam a aplaudir; entre os literatos dos múltiplos códigos e os que nem têm acesso à informação.

E é este mundo de desigualdades que exige à escola e ao professor a tarefa alquimista de homogeneizar as diferenças.

Os professores podem e estão habituados a fazer muito e bem. Têm sido os líderes das forças de sinergia que mantêm os sistemas sociais e económicos em equilíbrio dinâmico. São eles que, no silêncio de cada dia, e sem invocar méritos desnecessários, evitam que muitas famílias se disfuncionalizem, que as sociedades se desagreguem, que os estados se desestruturem, que as religiões se corroam.

Mas não podem fazer tudo. Melhor diríamos: é injusto que se lhes peça que façam mais.

Particularmente quando quem o solicita sabe, melhor que ninguém, que se falseia quando se tenta culpabilizar a escola e os professores pelos mais variados incumprimentos imputáveis ao sistemático demissionismo e laxismo das famílias, da sociedade e do próprio Estado tutelar.

É bom que se repita: os professores, por mais que se deseje, infelizmente não têm esse poder curativo. Dizemos infelizmente porque, se por milagre o tivessem, nunca tamanho domínio estaria em tão boas e competentes mãos.

E é precisamente porque nunca foram tocados por qualquer força divina que os professores, como qualquer outro profissional, também estão sujeitos à erosão das suas competências; que, como qualquer técnico altamente qualificado, eles também necessitam de actualização permanente. E é por isso mesmo que os docentes reclamam uma avaliação justa do seu desempenho. Uma avaliação em que se revejam, que os estimule a empreender e que os ajude no seu crescimento profissional.

Todas as escolas preparam impreparados. Até as que formam professores. Sempre foi assim e, daí, nunca veio mal ao mundo. É a sequência e a consequência da evolução dialéctica das sociedades e das mentalidades.

Por isso, centrar a discussão na impreparação profissional dos docentes, como se tal fosse estigma exclusivo desta classe e justificasse as perversas iniciativas que lançam a suspeita pública sobre a responsabilidade ética dos educadores no insucesso do sistema educativo e no desaire das políticas educativas que não têm vindo a sancionar, isso dizíamos, traduz uma inqualificável atitude de desprezo pela verdade e pela busca de soluções credíveis e partilhadas.

Admitir que a educação pode resolver todos os problemas e contradições da sociedade, resulta em transformá-la em vítima evidente do seu próprio progresso.

Repetimos: os professores não têm esse poder curativo. Os docentes não podem solucionar a totalidade dos problemas com que se confrontam as sociedades contemporâneas, sobretudo se não tiverem os contributos substanciais dos outros agentes educativos e das forças significativas da sociedade que envolvem a comunidade escolar.

Evidentemente que a escola e os professores podem e devem contribuir para o progresso da humanidade e para o seu desenvolvimento político, económico, social e cultural. Porém, tal não é atingível apenas com meros instrumentos educacionais porque eles, por si só, não são capazes de estilhaçar o mundo de crescentes desigualdades e uma cúpula política sob a qual coexistem a injustiça, o desemprego e a exclusão social.

Os professores não têm esse poder curativo e, por favor, não os obriguem a ser mais do que são, ou nunca serão o que o futuro lhes exige que venham a ser.
João Ruivo

4 Response to "O poder curativo dos professores. Um texto de João Ruivo"

  1. É sempre muito bom ler os textos do professor João Ruivo! Entende a educação e sabe exactamente o que é o trabalho do professor, os seus desafios, as suas preocupações, os seus dilemas, os seus anseios mas também os obstáculos que encontra! Reconhece fragilidades mas sabe integrar num todo coerente!
    Este é o incentivo!
    Não precisamos de outro, não há outro!
    Obrigada, professor João Ruivo!

    Subscrevo por completo este texto. Como não saberia dizer melhor, levei-o para o meu blogue.
    Obrigada, Ramiro.

    Excelente texto do professor João Ruivo.
    É verdade que tomos temos a nossa quota de culpa relativamente ao estado actual do ensino em Portugal. estou, no entanto, firmemente convicto, por aquilo que conheço no terreno, que os professores são os menos culpados da situação! Assim dessem aos professores os instrumentos necessários para um exercício adequado da sua profissão!!!
    A grande maioria dos professores vai para o Ensino por vocação. Portanto, exercem-na (ou têm-na exercido) com prazer!!!!

    O que acontece é que esta sociedade tecnológica, economicista, fria, tornou-se ingrata, não sabendo reconhecer o trabalho que os professores fazem diariamente na educação dos seus filhos!!!!
    Enquanto o professor não for respeitado, não for acarinhado e tratado como merece, o ensino nunca dará a volta que é necessária!!!

    As Reformas fazem-se com os professores e nunca contra eles!!!

    jm

    1/4 de século de exercício desta profissão e nunca vi os excessos absurdos que se seguiram à revolução de 74, quando qualquer pessoa era convidadada a "dar umas aulas". Muitos, naturalmente, davam barraca e acabavam por não meter mais os pés na escola, por decoro.

    Mas isso acabou há muito. Foi transitório, no alargamento da escolaridade obrigatória, na massificação repentina do ensino.

    Aposto singelo contra dobrado que na cabeça dos valteres eduqueses, a escola ideal será a escola sem professores, com uma espécie de regentes, que podem ser funcionários do Partido, cheios de "afectos", e aulas em compact disc, ecrã gigante.

    Poupa-se um balúrdio e encarneira-se melhor o cidadão.

    Não me vejo como um herói. Ou vejo, mas tanto quanto qualquer outro trabalhador. Contudo, acredito que a minha profissão, bem desempenhada, com sentido humano, tem algum efeito terapêutico.

    Podemos levantar ânimos, fazer pessoas acreditarem nelas, ajudar a que atadinhos percam os complexos, a que tristes se tornem mais optimistas, a que mal amados se sintam apreciados, etc..

    Claro, não conta para a avaliação :)