Luís Costa escreve carta aberta ao encarregado de educação


AO ENCARREGADO DE EDUCAÇÃO

Hoje, é a si que eu me dirijo, enquanto membro fundamental da comunidade escolar e educativa e parte interessadíssima em todo este diferendo entre o Ministério de Educação e os professores, pois o que está em jogo não são simples interesses salariais dos docentes, mas o futuro da escola pública tal como hoje a conhecemos. O que está em jogo, para quem — num futuro próximo — não puder pagar um colégio particular, é o desgosto de ver filhos e netos crescerem numa escola de segunda, onde o sucesso é apenas aparente e não há dinheiro para aqueles que têm mais dificuldades de aprendizagem. O que está em jogo para a maioria dos pais é terem — num futuro próximo — de deixar os filhos numa escola dominada pela indisciplina e pela violência, porque não há dinheiro para contratar auxiliares de acção educativa: os sinais já são mais do que evidentes; quanto ao que falta ver, basta olhar para os exemplos tristes que nos chegam diariamente, através dos meios de comunicação social.
O Ministério da Educação pretendeu lançar os pais contra os professores, sugerindo ao povo português que nós somos os responsáveis pelo insucesso dos alunos: todos sabemos que isso está longe de ser verdade. O Ministério da Educação pretende agora convencer a sociedade de que nós não queremos ser avaliados: MENTIRA ABSOLUTA. Nós sempre fomos avaliados e, caso este sistema de avaliação vingasse, obteríamos mesmo melhores resultados: no sistema anterior, praticamente todos os docentes transitavam de escalão com a menção de “SATISFAZ”; no presente modelo, como demonstraram os dados do ano transacto — divulgados pela senhora ministra da Educação — a esmagadora maioria dos professores obteve “BOM” e “MUITO BOM”. O problema, senhor encarregado de educação, é que nós, tal como o senhor, não queremos ser avaliados pelo nosso colega do lado, que ascendeu à categoria de “titular” por mera arbitrariedade administrativa. O problema, senhor encarregado de educação, é que nós não queremos uma avaliação que não está orientada para a melhoria da escola enquanto instituição educativa. Esta avaliação está para nós como a “transição obrigatória” está para o seu educando: o Estado não quer gastar dinheiro com aqueles que frequentam e ensinam na escola pública, para poder construir linhas de TGV, para patrocinar as asneiras e as fraudes dos grandes banqueiros… Nós queremos uma avaliação justa, competente e que premeie, de facto, aqueles que merecem.

Deixo-lhe alguns tópicos que poderão estimular a sua reflexão sobre toda esta problemática:

1- Reduzir o tempo de preparação de aulas aos professores não é forma de ter melhor educação para o seu educando;
2- Empurrar os professores para a transição de todos os alunos não é caminho para que o seu educando chegue longe nos estudos;
3- Criar um sistema que, no ensino básico, favorece o absentismo do aluno não é caminho para uma educação sólida e com perspectivas de futuro;
4- Desrespeitar os docentes e impedir que eles tenham o estatuto social que merecem não é a melhor forma de precaver o futuro de um país civilizado;
5- Diabolizar os professores perante a sociedade e os alunos é querer lançar sobre eles a desconsideração e a indisciplina; é contribuir para a degradação do ambiente educativo da sala de aula e da escola;
6- Numa escola onde não cabe o respeito pelo professor e a indisciplina grassa não é o local ideal para formar os homens e mulheres conscientes do amanhã; não é lugar onde possamos deixar os nossos filhos;
7- Os encarregados de educação estão tranquilos, porque sabem que podem ir para os seus empregos, enquanto os seus filhos estão entregues a profissionais confiáveis, que os ajudam a crescer e a serem melhores seres humanos e bons profissionais;
8- Todos os encarregados de educação querem o melhor para os seus educandos;
9- O melhor para os vossos (nossos) filhos é uma escola com profissionais respeitados, motivados, com tempo para se dedicarem ao estudo, à pesquisa, à correcção dos trabalhos dos alunos, à preparação e planificação das aulas;
10- O trabalho do professor é muito desgastante e não pode ser exercido sob pressão, nem em série, porque a escola não é uma fábrica e os alunos não são peças de uma cadeia de montagem: as aulas passam a ser impessoais, rotineiras e as possibilidades de erro aumentam drasticamente (de planificação; de execução; de avaliação);
11- O que este governo quer, senhor encarregado de educação, é uma escola barata; este governo não pensa no que é melhor para o seu educando, mas no que sai mais barato aos cofres do Estado;
12- Os pais não querem o barato para os seus filhos, querem o melhor;
13- Não é justo que só os ricos tenham acesso à melhor educação;
14- Portugal sempre pôde confiar nos seus professores; contam-se pelos dedos os políticos em quem realmente podemos confiar.
A senhora ministra da Educação já admitiu atender às reivindicações dos professores, mas apenas depois das eleições. Como toda a gente percebeu, estamos sujeitos ao calendário e interesses eleitorais de um partido e o Governo coloca esses interesses acima dos direitos de alunos, encarregados de educação e professores, não se importando com as consequências pedagógicas do prolongamento desta querela. É, pois, fundamental que as associações de pais se juntem àqueles a quem confiam diariamente os filhos, àqueles que estão realmente a defender a escola pública, para que a serenidade e a motivação voltem rapidamente às salas de aula e todos possamos, finalmente, ensinar e aprender num ambiente educativo de confiança e respeito.

Luís Costa 
Nota: Neve na Guarda. Fonte: gerotempo. Foto rendadebilros 

19 Response to "Luís Costa escreve carta aberta ao encarregado de educação"

  1. Anónimo says:

    Concordo,
    mas "Diga-me porque é que escreveu este texto, se foi poorque agora (o) quer(em) avaliar"?.

    Boa noite, meu fiel amigo! Conseguiu chegar uma vez mais em primeiro lugar aos comentários! Tem excelente na participação e no empenho!

    Convido-o a visitar os meus blogues, onde poderá constatar que, de facto, morro de medo de ser avaliado!

    Ouça também a música do "Dardomeu", que é uma delícia!

    Este comentário foi removido pelo autor.
    R.Maria says:

    Em tempos idos,mas não muito longínquos,a "nossa" ministra afirmou alto e bom som: "Perdi os professores,mas ganhei os pais!"
    Nesse dia,deixei de acreditar que o futuro desta Educação fosse conducente ao sucesso da escola pública...

    Anónimo says:

    Luis Costa.


    Porque é que o absentismo dos professores diminui tanto com esta Ministra?

    Este comentário foi removido pelo autor.

    Anónimo das 8:09

    Não lhe sei responder, porque continuo a ter exactamente o profissionalismo que tinha antes desta ministra ser o que nunca devia ter sido.

    A pergunta que me deveria ter feito é a seguinte: "Como explica que, com esta ministra, a educação tenha batido no fundo?"

    professora says:

    Ao Luís costa: concordo com tudo o que diz no seu texto, mas muitos pais não o vão ler até ao fim. Uns porque não estão interessados, outros porque é longo. A mensagem é boa, mas tem que ser breve para entrar.
    Ao senhor anónimo: é pena que os professores se preocupem mais com o futuro e a formação dos vossos filhos do que vocês mesmos. Não sei se é por incapacidade intelectual ou por má fé. A verdade é que espanta ver por aqui muitos que se afirmam encarregados de educação e que aplaudem esta política suicida. Nem sequer sabem ler os sinais sociais que mostram que o ambiente da escola é cada vez menos um lugar seguro para crianças e jovens. Se há quase dois anos lutamos tanto, e antes nunca o fizemos, procurem saber as razões da nossa luta. Parem para pensar e descubram que os professores são os vossos maiores aliados. São eles os únicos que se interessam pelos vossos filhos. Também ei que muitos pais há descobriram isto.

    professora says:

    corrijo: Também sei que muitos pais há muito descobriram isto.

    Anónimo says:

    Todos para avaliação e em força!!!!

    Começo a ficar cansada da conversinha de que os professores têm medo de ser avaliados. O país inteiro já teve tempo de perceber porque é que os professores rejeitam este modelo de avaliação. Não querem perceber? Então vamos mostrar-lhes na prática. Vamos todos exigir ser avaliados, não pelo simplex em vigor, apenas neste ano lectivo, mas com tudo o que o modelo contém. Vamos rebentar com a demagogia de uma vez por todas!

    Anónimo says:

    Luis costa,

    Uma andorinha não faz a Primavera. E mais: sei que hoje os professores faltam meenos. Sabe porquê? Porque as faltas começaram a pesar na sua progressão. Se os resultados dos alunos, também, condicionarem a nota de desempenho pode crer que se importarão mais com os resultados que alcançam. Sei do que falo, basta apenas estar sentadinho na sala de professores e ouvir o que dizem.

    Meu caro anónimo de todas as horas, lamento muito que lhe tenham atribuído essa incumbência de estar a meter veneno neste fórum de professores. Na realidade, nunca esteve «sentadinho numa sala de professores»: percebe-se isso pelo seu discurso, que já se torna repetitivo e previsível. O meu estimado anónimo estará certamente algures, no Largo do Rato, a tentar ganhar a vida. Poderia ser pior, mas hoje a vida está difícil para todos. Quer um conselho? Junte-se ao Manuel Alegre!

    Este comentário foi removido pelo autor.

    Professora,

    Esta minha "Carta Aberta" tem a ver com o texto publicado mais abaixo: "O Meu Plano". Se a ideia de juntar a voz dos pais à nossa tiver acolhimento, está nesta missiva uma base para argumentação. Assim, esclareço que escrevi esta carta para os pais, mas a pensar que a mensagem chegará até eles através dos professores.

    Penso que me terá entendido!

    professora says:

    Claro que sim, Luís Lopes e aplaudo a sua persistência e dedicação. Nesta luta estamos do mesmo lado.

    Anónimo says:

    Luis Costa,

    Deve estar a confundir-me, por certo, sabe o que é o PE, o CP, o CGT, o RI...
    Sabe o que é dar aulas ao Recorrente e garantir que os launos as aproveitam enquanto que outros aplaudem a sua ausência?
    Não pense que é o "espertinho", há quem saiba, tb, alguma coisa e procure aprender mais e não se queira confundir com os que agora não têm tempo para ganhar uns cobres com as explicações.
    Há muitos que se queixam que não têm tempo para preparar as aulas e depois vão a correr para os centros de explicações.
    Quanto às insinuações que faz, apenas lhe digo não merecem qualquer comentário. São habituais em quem não tem argumentos capazes, atacam o argumentador.
    Seja sério e diga porque é que o absentismos dos professores diminuiu em mais de 50%. Verá que a mudança se justifica para bem de quem sempre cumpriu. Eu não receio a mudança e o senhor?

    professora says:

    Queria dizer Luís Costa, claro.

    isabel fidalgo says:

    Caros anónimos,

    Estive a ler os vossos comentários e achei que de devia dizer duas palavrinhas. Em primeiro lugar, o Luís Costa é um professor que não teme ser avaliado, pois não só foi o aluno com uma classificação académica excepcional, como um estagiário com nota de excelência (18.valores). E isto há 20 anos atrás.Uns anos mais tarde,foi Presidente da Comissão Executiva da Escola Secundária D. Maria II, onde sou professora efectiva, e a sua conduta foi de uma invejável coerência e de uma verticalidade de carácter. Não agradou a gregos e romanos, mas conseguiu reerguer uma escola, pelo seu esforço e entrega totais, com muitos dos domingos a trabalhar na escola, quando podia delegar o trabalho noutras pessoas, como fazem a maior parte dos chefes. Além disso, o Luís é um artista e um homem com uma sensibilidade fora de comum.Se há alguém que pode chegar ao excelente,sem se esforçar, é o Luís. Mas ele sabe que esta sua determinação é em defesa de valores que, para ele são essenciais, e dos quais não abdica, porque "corre nas suas veias sangue velho dos avós" e ele é dos que diz"só vou por onde me levam os meus próprios passos".

    Anónimo says:

    Um pequeno conselho (e grátis!) de quem anda nisto há muito mais tempo que os presentes:

    Não é de bom tom estar a repetir posts que foram comentários noutras secções ou noutros blogs. Faça como entender. Até pode apagar este comentário. Mas nada impede de ter este aviso como registado.



    (Exactamente. Não sou só professor... nem respondo a qualquer cor ou credo político)