Obrigaram 200 professores de TIC a compor canções para o Migalhães e eles aceitaram!
1."Sou coordenador TIC do meu Agrupamento de Escolas e fui convocado para me deslocar ao parque tecnológico de Cantanhede para receber formação sobre o tão propalado portátil Magalhães. Lá fui eu para dois dias de trabalho, cujo programa era, em 90%, composto pela expressão « jornada de trabalho com a Intel»:
2. Primeira nota triste do evento: a organização distribuiu «pen drives» de um Gb, oferta da Intel contendo toda a documentação. Acontece que tinham umas 100 unidades para dar a 200 pessoas. Claro que metade (incluindo eu) ficámos a ver navios, havendo dignos colegas que se assambarcaram de duas ou mais, facto que também não me causa qualquer espanto. Mas para a Organização tratou-se de mais uma normalidade!
3. Comecemos pela manhã de Quinta-feira, onde fomos levados, em grupos, para pequenas salas do complexo, onde supostamente nos iriam ser dadas directrizes relativamente ao Magalhães e às suas potencialidades em contexto educativo, para nós transmitirmos aos professores do 1º ciclo. Aliás, esse deveria ter sido o grande objectivo deste encontro; recebermos formação para a replicar junto das escolas envolvidas.
4. Ao invés disso, e para ser muito mais sucinto do que gostaria nesta crónica, somos brindados com apresentações de powerpoints em português, lidas em Inglês com sotaque russo, traduzido por senhoras contratadas para o efeito, como se nunca tivéssemos ouvido uma palavra em Inglês na vida e como se isso fosse o entrave à formação. Num parque dito tecnológico, as redes funcionavam mal ou não funcionavam, ninguém sabia ligar, o senhor russo ia ironizando como se estivesse num país de 3º mundo e a senhora tradutora ia tentando fazer a uma espécie de ponte entre surdos mudos. A seguir, mais um estrangeiro qualquer a debitar informação em inglês sobre um powerpoint em português e depois apareceu um brasileiro (ena!!! Um brasileiro!!!) mas que nada de útil nos transmitiu.
5. Eis que pelas 14 horas iria começar uma das melhores sessões de circo a que os meus olhos assistiram até hoje. O speaker de serviço que ostentava na lapela uma identificação de uma empresa que não conheço, mas que nem era do ME nem da Intel nem da JP Sá Couto, apresentou as três senhoras que tinham vindo expressamente dos States, com chancela da Intel, para nos brindarem com uma sessão de trabalho inolvidável. Eis que aparecem 3 senhoras com ar de quem está reformado há 20 anos, nos EUA, mas que em Portugal estariam no auge da carreira. Depois das simpatias ao país e de demonstrar que nada de útil iriam transmitir, resolveram propor aquilo que as trouxe ao, pensam elas, Burkina Fasso da Europa. Desde logo me demarquei e senti vontade de abandonar a sessão, mas os colegas... ah e tal... esquece isso... e tal.... Não te enerves... isto é sempre assim... e tal! Continuei a assistir e a incredulidade ia aumentando.
6. Aquelas 3 senhoras acham que uma sessão de trabalho com a Intel é propor a 200 professores que inventem uma cantiga ao Magalhães, e se possível com teatro à mistura. Como eu e mais alguns colegas (muito poucos) mostrámos alguma estupefacção pelo que se estava a passar, uma das senhoras americanas apressou-se a dizer, bem alto e em tom ameaçador, que quem não participasse não seria incluído no sorteio de um Magalhães que iriam oferecer.
7. E, meus caros leitores, era ver 200 professores imbuídos naquela actividade com todo o afinco; sei que muitos grupos trabalharam online pela noite dentro e ao outro dia de manhã, os meus olhos ficaram estarrecidos com a produção apresentada. O desfile dos «trabalhos», (era assim que lhe chamavam) começou, e desde o malhão do Magalhães, até à vida de marinheiro do magalhães, passando por coreografias com adereços circenses, tudo de «útil» passou por aquele palco, até as náuseas me obrigarem a sair. Apenas voltei a entrar para ir junto da senhora que tinha o saquinho das senhas para o sorteio e dizer-lhe que não iria colocar lá o meu papelinho.
8. Conclusão: à bela maneira dos professores portugueses, que são exímios na arte de obedecer, mesmo não concordando, e na arte de produzir conteúdos, ainda que lúdicos (pena ter sido num contexto absurdo), toda a gente parecia achar aquilo ridículo, mas apenas eu e o meu amigo Paulo Pereira resolvemos sair e mostrar a nossa indignação a uma senhora da DREC que, educadamente, tal como eu na abordagem que lhe fiz, esgrimiu as fundamentações para aquelas «sessões de trabalho com a Intel».
9. Alguém me explique como se eu tivesse 8 anos, como é possível convocar 200 professores para dois dias de trabalho com a Intel, com a apresentação do «Magalhães» em pano de fundo e, basicamente, 3 senhoras americanas, apoiadas por pessoas de... uma empresa (!), gastarem um dia a obrigar-nos a produzir teatrinhos e cantigas para miúdos de 6 anos, outro meio dia gasto com russos a lerem powerpoints em pseudo inglês, escritos em Português, com tradução por senhoras contratadas.
Professor, Coordenador das TIC
Esta gente já aprendeu com o grande mestre engenheiro arquitecto Sócrates...
Bem, isto demonstra a total inépcia de quem governa e o desconhecimento de que há profissionais da área específica de Educação Musical no Ensino... ( concerteza nenhum aceitou a proposta por falta de tempo devido às famigeradas fichas, acções de formação pagas, etc. etc.) Querem música " a metro"... Por outro lado, quem iria fazer uma composição musical sobre um computador? Curiosamente, pedem músicas, teatros, dramatizações para tudo o que seja "propaganda" ou festinhas nas escolas e as opções do 3.º Ciclo ( que são três) são OBRIGATORIAMENTE Espanhol... curioso... ainda vamos ter, um dia, um PC para o 3.º Ciclo chamado Colombo ( tal como o Centro Comercial) com um Salero ou Sevilhana na propaganda/publicidade do produto
É o triste país que temos. A coluna vertebral é cada vez mais fraquinha. Por este andar, ainda parte e ficamos todos tetraplégicos.
Belo retrato, na linha do "locus horrendus"! Desculpem a minha vergonha!
JP Sá Couto é acusada de fraude e fuga ao IVA
Empresa que produz o computador “Magalhães” vai a tribunal
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345162&idCanal=62
A prova deste último comentário é a de que somos governados por imbecis que desgovernam o país e que gozam com os portugueses... nem Salazar!
Leiam em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345162&idCanal=62
o testemunho de uma colega sobre Avaliação
Aqui, afinal
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345140&idCanal=58
Isto só vem confirmar o que eu, há mto tempo, venho dizendo, apesar da contestação de mtos meus colegas, alegadamente , gente de esquerda.
Ser-se de esquerda é, no meu entender, essencialmente ser racional e pensar pela sua própria cabeça.
Os professores que participaram, alegres e contentes, como se deduz do texto do colega, são literalmente uns invertebrados, que justificam todas as malfeitorias que a quadrilha da 5 de outubro lhes faz.
Eles, se algum dia vierem a ocupar um tacho dqueles, quase de certeza, que, apesar de parecer impossível, serão ainda piores.
Tino!
Engenheiro arquitecto mestre e Doutor... ah pois é, que no ISCTE não se faz a coisa por menos...
juro que fiquei agoniado a ler o post e a tentar perceber o que leva 200 tipos a fazer figuras de parvos...nao encontro uma explicaçao..so uma duvida, desses 200 quantos eram profs e quantos eram profas?
Viram o vídeo?
Inacreditável.
Parabéns! O texto é de rir até às lágrimas, embora o choro de revolta e tristeza por tais acontecimentos devesse acontecer...
Os professores são cada vez mais considerados por este governo e afins os bobos da corte de socrates...a população feliz...os alunos que se lixem...um dia irão aprender que perderam o tempo para nada...que afinal não passam de simples analfabetos