Migalhães - Um poema do Luís Costa



Lá vem pelo avelar
O filho do Zé João
Vem do centro escolar
Cansado de palmilhar
A caminho da povoação

Não há médico na aldeia
E a antiga escola fechou
Não tem carne para a ceia
Nem petróleo para a candeia
Porque o dinheiro acabou

O seu pai foi para França
Trabalhar na construção
E a mãe desta criança
Trabalha na vizinhança
Lavando pratos e chão

Mas o puto vem contente
Com o Migalhães na mão
E passa por toda a gente
Em alegria aparente
De quem já sabe a lição

Um senhor muito invulgar
Que chegou com mais senhores
Veio para visitar
O novo centro escolar
E dar os computadores

E lá vem o Joãozinho
No seu contínuo vaivém
Calcorreando o caminho
Desesperando sozinho
À espera da sua mãe

Neste país de papões
A troco de dois vinténs
Agravam-se as disfunções
O rico ganha milhões
E o pobre Migalhães

Luís Costa



11 Response to "Migalhães - Um poema do Luís Costa"

  1. M.Isabel Fidalgo says:

    Muto bonito, Luís! Comovi-me de verdade.

    O título do poema é apenas "MIGALHÃES"

    ramiro says:

    É realmente um belo poema, não acham?

    Ramiro

    Só agora vi o seu comentário no artigo sobre o "Ministra Sinistra". Quero abraçá-lo pelo gesto! Muito obrigado! Vou copiar a foto e associá-la definitivamente ao meu "Migalhães".

    É um belo poema. Vale também pela denuncia que faz.Excelente

    bárbara says:

    Excelente!

    Anónimo says:

    Tal como os outros poemas, está Fenomenal!
    Ana s.

    Safira says:

    Por acaso ou não comentei há dias o conteúdo deste poema, mas em prosa claro. No essencial as crianças não têm o essencial, ou seja as bases do bem - estar, entre as quais a alimentação. Comentava eu que alunos meus (e de outros professores) chegavam a desmaiar na sala de aula com fome. Responta de outra colega " o Magalhães vai ser muito importante para eles". Será que vai??
    Bravo Luís, este poema vai ao encontro do que muitos de nós pensam.

    António Sousa says:

    Leio no Público on-line em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1344848

    Assinatura de memorando entre a Microsoft e o governo
    Sócrates diz que Magalhães é exemplo de modernização
    03.10.2008 - 16h49 Lusa

    Transcrevo aqui o lá escrevi:

    "Queremos que a escola pública portuguesa esteja na frente destas mudanças tecnológicas do mundo"... Como pode um senhor primeiro ministro querer isto e dizer isto"... as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) são decisivas para melhorar a educação portuguesa", se em casa da maioria das crianças, a quem foi oferecido o Magalhães, são inúmeras as dificuldades que as suas famílias sentem para lhes dar o pão, a paz, a saúde e a educação?...
    Que país virtual, o meu, o nosso... este!

    Anónimo says:

    Pura e simplesmente delicioso.
    É necessário que alguém diga as verdades a este politicos hipocritas e subversivos.
    Há mundo para além do "Migalhães". Há fome, há frio, não há livros...
    Os meus parabens pelo poema ... e pela ausadia. Continue.
    Romeu Caetano.

    LSantos says:

    Antes de mais, boa tarde.

    Concordo e aceito que seja esta a reacção ao Magalhães. Mas deixo-vos o que penso.

    Há realmente muita coisa a fazer, neste país à beira mar plantado.
    Mas e que tal, sermos construtívos?
    Que tal, deixar-mos de "sermos as vitimas"?

    Realmente é muito triste toda esta “riqueza” que existe neste nosso país, mas não acho que seja SÓ este o caminho. A critica deve ser construtiva. Sobre pena de ser esquecida, ignorada.

    Realmente eu conheço a realidade que falam. É triste... muito... mas não é só nossa.

    E se este "Migalhães" ajudar "esses" rapazes/raparigas a terem sucesso na vida o que vão dizer nessa altura?
    E se este "plano" os ajudar a que não precisem de serem "jogadores da bola" para terem e puderem dar uma vida melhor aos seus?
    E se no fim, ajudar a que percebam e tomem decisões de forma mais lúcida e instruída?

    No fundo é uma grande contribuíção para o futuro.
    Mais e melhor acesso à informação. Menos desinformação.
    Menos "passa palavra" nas escolas.

    Agora há problemas graves a resolver, mas no fundo só me ocorre isto... “Não pudemos agradar a Gregos e a Troíanos”.

    De qualquer forma, não deixa de ser importante mostrar a realidade. E por isso, os meus parabéns.