É possível avaliar os professores? Como? Qual é a alternativa ao Decreto Regulamentar 2/2008?
Aldeia de Brufe, Parque Nacional da Peneda e Gerês
Na sequência dos meus posts sobre as "bases para uma avaliação de desempenho alternativa" e dos comentários da colega Ana, o colega António desenvolveu esta argumentação que me parece muito coerente e sensata.
Os argumentos do António
"Acho que os grupos disciplinares e respectivos coordenadores eleitos pelos colegas têm constituído o núcleo duro da organização pedagógica nas escolas, mais até que muitos CP´s. A questão reside no que deve ser "avaliado".O que deve ser verificado são os erros grosseiros": absentismo grave do professor sem justificação lógica, não cumprimento dos programas, directivas e rotinas do respectivo departamento, contributo "nulo" para a vida activa da escola,não cumprimento de tarefas e funções que resultem de cargos específicos, erros graves no processo de avaliação dos alunos, e mais 2 ou 3 aspectos nesta linha.
Tudo o que vá para além disto...há-de ser outra coisa que não avaliação do desempenho."
A propósito do mesmo assunto, o colega JVarela deu um contributo também muito interessante.
Os argumentos de JVarela
Os argumentos de JVarela
"Há, de facto, vários modelos de avaliação. E há muitas diferenças de país para país. Quero referir-me apenas a dois: o que se centra no professor e tem como referencial "um determinado perfil" e outro que se centra na escola como organização. O Governo português resolveu adoptar o 1º e foi buscá-lo à América do Sul (Chile). Só que não fez duas coisas essenciais: 1) não explicou como é que naqueles países se chegou até ali ( papel da Unesco, papel da Universidade Autónoma de Madrid); 2) copiou mal. Ora vejam: os professores chilenos são avaliados de 4 em 4 anos; as aulas observadas/filmadas são analisadas fora da escola por professores qualificados e treinados para o efeito;o portefólio está perfeitamente definido e não será nunca papel ao quilo. Etc....
Há outros modelos mais ágeis e com melhores resultados ao nível da eficiência e eficácia das escolas.
Todos os peritos sabem disto. Porque nos querem tratar desta maneira? Vejam, por exemplo o modelo belga. O relatório da avaliação externa é entregue ao Director que depois age em conformidade. Actuando nos casos problemáticos, com recurso a ajuda externa, se necessário. Os professores que consideram ter um desempenho muito ou excelente pedem uma avaliação extraordinária.
Façamos pois oposição pela positiva. Digamos que queremos ser avaliados, mas usando um modelo, de longe superior àquele que nos querem impor. Nós queremos avaliação de desempenho, que de facto, melhore a eficácia e eficiência da escola. Já agora aconselho todos os colegas a aprender o verdadeiro significado deste binómio. Vamos derrotá-los no seu próprio campo. Não tenhamos medo. Que nenhum português seja induzido a pensar que não queremos o melhor para os seus filhos!"
Todos os peritos sabem disto. Porque nos querem tratar desta maneira? Vejam, por exemplo o modelo belga. O relatório da avaliação externa é entregue ao Director que depois age em conformidade. Actuando nos casos problemáticos, com recurso a ajuda externa, se necessário. Os professores que consideram ter um desempenho muito ou excelente pedem uma avaliação extraordinária.
Façamos pois oposição pela positiva. Digamos que queremos ser avaliados, mas usando um modelo, de longe superior àquele que nos querem impor. Nós queremos avaliação de desempenho, que de facto, melhore a eficácia e eficiência da escola. Já agora aconselho todos os colegas a aprender o verdadeiro significado deste binómio. Vamos derrotá-los no seu próprio campo. Não tenhamos medo. Que nenhum português seja induzido a pensar que não queremos o melhor para os seus filhos!"
O meu comentário
Pessoalmente, estou totalmente de acordo com a argumentação do colega JVarela. Os professores têm de afirmar em uníssono que querem uma avaliação de desempenho, mas que recusam um modelo altamente burocrático e injusto. Sempre defendi que a avaliação de desempenho deve estar integrada no processo de avaliação externa da escola. Outros aspectos a incluir no modelo alternativo de avaliação de desempenho:
1. Ser feita de 4 em 4 anos.
2. Os pares não têm intervenção directa na atribuição da classificação aos colegas.
3. A observação das aulas só deve ser feita a pedido do avaliado ou quando este queira submeter-se a uma avaliação extraordinária com o objectivo de se candidatar a um Excelente ou Muito Bom.
4. As funções lectivas - quer as funções de preparação e criação de materiais de ensino, quer as funções de realização do ensino e de avaliação dos alunos - devem ser o centro do processo de avaliação de desempenho.
Quer colaborar neste debate? Qual é a sua opinião?
Ramiro
Em primeiro lugar espero que tenha tido uma óptimas férias.
Em relação ao assunto, unicamente considero a avaliação externa, do modo como se faz na Finlândia.
Tudo o que vier a mais é trabalho burocrático.
a forma de avaliação inter-pares, com uma comissão avaliativa dentro da escola tal como propõe o PROmova parece-me muito adequado.
agora que eu gostava de ter a avaliação belga, acho que sim que não me importava.
mas alma perdida também tem razão.
ou quem sabe o melhor destes três?
de qualquer forma este não é o verdadeiro problema. o verdadeiro problema está no estattuto.
os professorse titulares começam a ser chamados a tudo, ora os outros quando conseguiram mostrar serviço?
isto está muito igual às secções da função pública, quem escolhe e decide é o chefe e ponto.
ana g.
Acabei de escrever um comentário (longo) num post mais abaixo e estava a ler com atenção este post. Nem a propósito acabo de ler o comentário de ana g. que me dá razão na argumentação expressa.
Não quero ocupar espaço. Contudo parece-me que é importante estas passagens...para reflectirmos.
(...)Sustentar a departamentação disciplinar ou curricular, do ponto do vista da centralidade organizacional da escola, do funcionamento do sistema, como o modelo do ME propõe e legisla, é uma distorção dos núcleos reais pedagógicos das escolas do ensino básico mas seria até facilitador para qualquer professor (ou não). Também aqui, depende.
Mas o que acarreta, na prática, é uma dificuldade real na argumentação que permita fazer valer o mais básico bom senso em termos de organização do trabalho: operacionais (professores) com o mesmo descritivo funcional, com a mesma profissão não podem, por mecanismos administrativo-burocráticos que sustentam determinada opção ideológica ou política, serem hierarquia. Ter o poder de ajuizar sobre o desempenho profissional de um profissional e este ter consequências profissionais e pessoais futuras não pode ser atribuído a um colega do mesmo nível hierárquico.
Creio que a argumentação da departamentação, como núcleo por excelencia de funcionamento pedagógico não tem sustentabilidade real, mas seria aceitável, não fossem as consequencias que tal acarreta na sustentabilidade do modelo plasmado no actual Estatuto da carreira do(c)entee que não desejamos: A divisão artificial de uma carreira/profissão única num artificialismo e na sua consolidação temporal enquanto hierarquia formal.
Ana
Anónimo disse...
Este meu comentário que o Ramiro puxou para post foi escrito ao correr da pena. Lendo agora as sugestões de outros colegas e do modelo proposto de R.M. (ainda não o li com pormenor e toda a atenção, admito) parece-me que são divergências de pormenor mas que é necessário ter em conta. Este meu comentário postado, reflecte o meu posicionamento em face dos núcleos da centralidade pedagógica da organização escola e que estavam plasmados no revogado ECD e em toda a legislação subsequente. Do ponto de vista pedagógico, os órgãos eram o conselho pedagógico e os conselhos de turma com as respectivas coordenações. Os departamentos disciplinares ou curriculares eram tidos como orgãos de 2ª linha no Ensino Básico. Admito que no Ensino Secundário assim não fosse o que me parece fazer todo o sentido. A natureza da leccionação é distinta nos dois níveis de ensino.
Também a questão da elegibilidade dos coordenadores disciplinares como "avaliadores dos seus colegas" cria graves problemas na argumentação para desmontar esta barbaridade de ECD e de modelo de desavaliação profissional. É meio um beco sem saída. Claro, beco burocrático e absoleto mas é difícil sair daí "vivo". A argumentação que já aqui utilizei no profavaliação de que as competências científicas e profissionais e a actualização em carreira parece-me óbvia e eficaz, se bem utilizada em termos de mensagem negocial e para a opinião pública.
Sustentar a departamentação disciplinar ou curricular, do ponto do vista da centralidade organizacional da escola, do funcionamento do sistema, como o modelo do ME propõe e legisla, é uma distorção dos núcleos reais pedagógicos das escolas do ensino básico mas seria até facilitador para qualquer professor (ou não). Também aqui, depende.
Mas o que acarreta, na prática, é uma dificuldade real na argumentação que permita fazer valer o mais básico bom senso em termos de organização do trabalho: operacionais (professores) com o mesmo descritivo funcional, com a mesma profissão não podem, por mecanismos administrativo-burocráticos que sustentam determinada opção ideológica ou política, terem hierarquia. Ter o poder de ajuizar sobre o desempenho profissional de um profissional e este ter consequências profissionais e pessoais futuras não pode ser atribuído a um colega do mesmo nível hierárquico.
Creio que a argumentação da departamentação, como núcleo por excelencia de funcionamento pedagógico não tem sustentabilidade real, mas seria aceitável, não fossem as consequencias que tal acarreta na sustentabilidade do modelo plasmado no actual Estatuto da carreira do(c)entee que não desejamos. A divisão de uma carreira/profissão única num artificialismo e na sua consolidação temporal.
Não sei se consegui ser clara na exposição ...
Ana
Peço desculpa. Por engano coloquei todo o comentário!!! ...
E só o Ramiro o pode retirar...
Ana
Será que hoje estou de bruxinha...nem a propósito da chamada de atenção que acabei de postar!
"MENTIRAS, ARROGÂNCIA E ABUSO DE PODER
Estou farto de Mentiras, Arrogância e Abuso do Poder.
Nos outros anos tinha vontade de iniciar um novo ano lectivo, de reencontrar ou conhecer alunos e colegas. Este ano, não tenho vontade nenhuma. Tive uma reunião de departamento em que só se falou em avaliação de desempenho, pois não vale a pena conversar sobre articulações, estratégias e operacionalização de conteúdos, porque os alunos já passaram todos.
Nessa reunião, a nossa coordenadora/avaliadora disse:
a) As aulas assistidas serão blocos de 90 minutos, ou seja, em vez de três aulas serão seis.
b) Se acompanharmos alunos em visitas de estudo, formos chamados para corrigir exames ou provas de aferição ou tivermos o azar de perder um familiar ou de estarmos doentes, teremos de repor as aulas, obrigando-nos a trabalhar duplamente.
c) É necessário ter um portefólio digital e outro em papel, porque gosta de ler os documentos em papel.
d) Temos de fazer o trabalho dos coordenadores que têm redução para o efeito, pois será vantajoso para a nossa avaliação.
e) Temos de preencher uma grelha com os objectivos pré-definidos em que se pretende que os professores tenham 100% de sucesso nos resultados dos seus alunos.
Ler post completo em http://mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/
Ana
Então não foi isso que os profesores se fartaram de gritar na megamanifestação do dia 8 de Março? "Avaliação sim! esta não!"
Serviu de alguma coisa?
Prof. Sintra
Pois, eu também defendo que todos os professores exijam ser avaliados, mas que essa avaliação seja útil e séria. Na Europa, que é a parte do mundo a que pertencemos,há vários exemplos de países onde o ensino atingiu um nível de excelência. Não é verdade que os nossos governantes "enchem a boca com a Finlândia"? Muito bem. Não precisamos de ir mais longe. Por que não exigimos ser avaliados segundo o modelo finlandês? É isso que devemos fazer saber a todos: opinião pública, governo e sindicatos.