O Magalhães vem aí e vai ser oferecido a 500 mil crianças dos 6 aos 11 anos. Às ricas, por 50 euros e às pobres, à borla.


Garganta la Olla, no Vale la Vera, perto do Monasterio de Yuste. O rio forma uma piscina natural.
É uma enorme campanha de propaganda. Talvez a maior da história recente portuguesa. E tem o apoio entusiástico da Vodafone, da TMN, da Optimus e agora também do gigante norte-americano Intel. Temos de reconhecer que o homem é um mestre da propaganda e uma formiguinha trabalhadora. O próprio presidente da Intel, entusiasmado com o negócio do portátil Classmate, tambem apelidado de Magalhães, que lhe foi proporcionado pelo mestre da propaganda, alogia o Plano Tecnológico da Educação. Em entrevista ao DN, não poupa elogios ao homem. Vamos assistir a uma manobra sem precedentes na história portuguesa: o mestre da propaganda e uma meia dúzia de colaboradores irão percorrer o país, com os jornalistas atrás, a oferecer portáteis a crianças ricas e a crianças com fome. As crianças ricas não precisam porque já têm vários em casa. As crianças pobres não têm como pagar a ligação à Internet e, muitas, nem vivem em locais com rede de ADSL. E não se precebe qual a vantagem em colocar nas mãos de uma criança de 6 anos um portatil com ligação à Internet. Há até quem diga que é um crime desperdiçar tanto dinheiro.
A entrevista do presidente do Intel ao DN merece ser lida. Para além dos elogios a Sócrates, o presidente da Intel refere que há possibilidade de o portátil Magalhães ser exportado para a Líbia e para a Venezuela, mas isso só acontecerá se as encomendas forem pequenas. Se as encomendas forem grandes, a Intel optará por montar os portáteis nos países importadores. O que isto quer dizer é que o Magalhães só existe porque o Governo decidiu fazer uma encomenda de 500 mil portáteis para oferecer às crianças portuguesas dos 6 aos 11 anos de idade. A exportação do Magalhães não passa de wishfull thinking.
A propósito da admirável manobra de propaganda em torno do Magalhães, vale a pena ler o texto postado no blog Zero de Conduta:
Não só o computador não tem nada de novo como a única coisa portuguesa é a localização da fábrica e o capital investido. A "novidade mundial" ontem apresentada, já tinha sido anunciada a 3 de Abril - no Intel Developer Forum, em Shangai - e foi analisada pela imprensa internacional vai agora fazer quatro meses. O tempo que tem a segunda geração do Classmate PC da Intel, que é o verdadeiro nome do Magalhães. De resto, o primeiro computador mundial para as crianças dos 6 aos 11 anos, características que foram etiquetadas pela imprensa lusa por ser resistente ao choque e ter um teclado resistente à agua, já está à venda na Índia e Inglaterra. No primeiro país com o nome de MiLeap X, no segundo como o JumpPC. O “nosso” Magalhães é isso mesmo, uma versão produzida em Portugal sob licença da Intel, uma história bem distinta da habilmente "vendida" pelo governo para criar mais um caso de sucesso do Portugal tecnológico.
Quanto aos anunciados milhares de empregos a criar na fábrica JP Sá Couto, em Matosinhos, ninguém os verá tão cedo. Para já, a produção da encomenda dos 500 mil portáteis vai apenas exigir a contratação de mais 80 trabalhadores. E a anunciada intenção de exportação do Magalhães para os Palops só pode vir de alguém que nunca visitou as escolas dos Palops. É de rir! As crianças de Angola, Moçambique, Guiné e S. Tomé e Príncipe vão para a escola na mais completa penúria e as escolas, quando têm paredes ou electricidade, não têm qualquer tipo de material didáctico. É bom também lembrar que a maioria das crianças dos Palops nem electricidade tem em casa. Essa de exportar o Magalhães para os Palops é completaente insana!

3 Response to "O Magalhães vem aí e vai ser oferecido a 500 mil crianças dos 6 aos 11 anos. Às ricas, por 50 euros e às pobres, à borla."

  1. Maria Antónia Gonçalves says:

    Este mundo/país está a ficar completamente virtual!
    Que grande dependência destas máquinas!
    Crianças de 6 anos com computadores... é prematuro.
    Será que os computadores só têm benefícios? Duvido.
    Seria bom que cada computador se fizesse acompanhar de informação acerca dos seus malefícios.
    Parece-me que, daqui a uns anos, muitas crianças apresentarão graves problemas de saúde física e mental.

    Que este "entusiasmo" não contribua para grandes males.

    Safira says:

    Não poderia estar mais de acordo, com a Maria Antónia. E, pergunto eu: quando é que as crianças brincam?

    Neste tempo de tecnologias, esquecem que as crianças precisam de tempo e espaço para brincar, porque faz parte do seu crescimento e desenvolvimento.

    Este entusiasmo é já a pré-campanha eleitoral Sócrates.

    ramiro says:

    Concordo 100% com a Maria Antónia a Safira. As rianças de 6 anos precisam de manipular objectos que tenham uma ligação concreta com a realidade física. É prematuro iniciá-las no mundo virtual.