Os CEFs. O que fazer? Como e onde?

Jalé. S. Tomé e Príncipe
Os Cursos de Educação e Formação, vulgarmente designados por CEFs, tornaram-se numa bandeira da propaganda do Governo. Quem está nas escolas, sabe que os CEFs foram uma boa ideia mal conduzida. Aquilo que podia ter sido uma boa medida, no sentido de evitar o abandono escolar de alunos incapazes de seguirem um programa educativo regular, tornou-se um pesadelo para os professores e para as escolas. E porquê? Houve várias razões para este descalabro. A principal foi a pressa. Esta equipa ministerial tem estragado muitas boas ideias porque quer impor tudo sem diálogo, sem formação e sem preparação. É a decisão política feita à martelada. Regra geral, a pressa é má conselheira. Resta agora saber o que fazer com os CEFs?
Há várias possibilidades:
1. Retirá-los das escolas públicas e contratualizá-los com as escolas profissionais.
2. Reformular os CEFs no sentido de os tornar mais ligados às empresas e ao Instituo de Emprego e Formação Profissional, com uma componente forte de estágios em empresas e uma componente teórico-prática mais fraca, nas escolas.
3. Reforçar o nível das exigências em termos de assiduidade dos alunos e respeito pelas normas de convivência social, com a expulsão dos alunos relapsos.
4. Os alunos relapsos, aqueles que sistematicamente violam as regras, devem ser impedidos de frequentar os programas.
O ponto quatro levanta outras questões: o que fazer aos alunos que ninguém quer e que não têm condições mínimas para frequentarem um programa educativo numa escola pública?
Esses alunos devem ser encaminhados para os tribunais de menores para que, em certos casos, sejam obrigados a frequentar instituições de reabilitação social em regime fechado ou semifechado.
Qual é a sua opinião? Como devem ser reformulados os CEFs? Onde meter os alunos relapsos? O que fazer com eles?
Eu também acho que foi um erro colocarem os CEFs na Escola Pública, porque estragaram o ambiente em muitas escolas, originando muita indisciplina e queixas e desmotivação nos professores. O problema é que muitas escolas abriram os CEFs porque precisavam de horários para os seus professores. E é aqui que reside o problema!
Se ao menos a Sra Ministra estivesse preocupada com a exigência e a indisciplina ainda se poderia tentar dar a volta ao problema, expulsando os piores e encaminhando-os para instituições apropriadas! Mas, assim, não sei como se resolve este dilema!
JMatias
O problema principal está no mau ambiente que muitos CEFs criam nas escolas. Uma hipótese de solução seria expulsar os alunos relapsos. Aqueles que sistematicamente não cumprem as regras nem frequentam as aulas.
Ramiro
Os CEFs são bastante exigentes em termos de assiduidade.
Há escolas com 1 ou 2 CEFs, apenas, que lidam bem com eles.
O JMatias pôs o dedo na ferida: O Sistema - Os horários dos professores!!!!
As escolas que têm uma tradição de ensino técnico costumam fazer um bom trabalho comm os CEFs. O mal está em quererem meter CEFs em todo o lado.
Ramiro
O problema é que os CEF's são fonte de financiamento das escolas via POPH, retirem-no e quero ver quantas escola abrem CEF's?
Em vez de utilizar os CEF como bandeira de propaganda, o Governo deveria envergonhar-se da aberração, da mentira, da palhaçada que inventou e do ''circo'' que ''armou''...
E depois da ''invenção''?... Escolas e professores trabalhem...
O que fazer? Como e onde? Como eu gostaria de saber responder!!!... (Até porque se trata de uma questão que me ''toca'' particularmente!)
Atrevo-me, apenas, a deixar aqui algumas achegas às possibilidades que coloca, Ramiro:
- A maioria dos alunos dos CEF não está minimamente interessada em ''Saber ser'' e/ou em ''Saber estar'', quanto mais em ''Saber fazer''!...
- Esses alunos não querem saber de Educação nem de Formação...
- Muitos deles não podem ser encaminhados para os tribunais de menores, uma vez que nem sequer são ''menores''...
- Os tribunais de menores não têm tido capacidade de resposta para tanta ''marginalidade'', nem no país existem instituições de reabilitação social suficientes...
- Alguns desses alunos (mais do que o desejável, infelizmente!)acabarão em instituições... mas prisionais...
- Se existirem medidas sancionatórias mais penalizadoras (expulsão incluída) a serem efectivamente aplicadas, os casos de indisciplina diminuirão...
- Se os alunos puderem efectivamente ser excluídos por faltas, os níveis de assiduidade melhorarão...
Considero, humildemente, que, nestas turmas, só se conseguem alguns resultados positivos com um elevado grau de autoridade (e algum autoritarismo à mistura), muita persistência e paciência, muita determinação, muito trabalho e dedicação profissional, muita exigência relativamente a atitudes (comportamento e empenho), muito rigor, nenhuma cedência, tolerância zero... e sem ''medo'' (muito importante!!!)...
Isa
P.S. Os professores que leccionam turmas de CEF deveriam ter redução de horário...
A sua carga de trabalho é pesadíssima (elaboração de materiais, reuniões frequentes, reposição de aulas, etc.)...
O seu desgaste emocional é profundo (consequência das mais variadas formas de indisciplina e da falta de interesse e empenho por parte dos alunos... da falta de tempo para dedicarmos à família, aos amigos e a nós próprios... da nossa frustração, etc.)...
O trabalho da Direcção de Turma não termina nunca: faltas... processos disciplinares... contactos com Encarregados de Educação... reuniões... relatórios, etc...
Os professores com turmas de CEF em algumas escolas deste país passaram a ter uma profissão de ''alto risco''...
Conforme já disse, em posts anteriores, nunca dei CEFs; o que sei´é aquilo que os meus colegas que contam. Penso, no entanto, que este testemunho tão veemente da colega Isa deve ser tido em conta. Se há uma ou outra escola onde podem funcionar menos mal, há certamente muitas outras onde funcionam muito mal, dada a base de recrutamento destes alunos.
Portanto, eu registo com muita tristeza este depoimento desprendido que revela muito do sofrimento dos professores actualmente, principalmente os que têm CEFs. Ainda esta manhã um colega meu de Fisico-Química disse-
me que tinha um CEF e que eles não sabiam nada, não se interessavam por nada e que era um sacrifício enorme dar aulas àqueles alunos!
O que é que será necessário dizer mais sobre estes alunos!
A única coisa que me apraz dizer neste momento é que, com a máxima sinceridade, gostava de ver a Sra Ministra da Educação Mª de Lurdes Rodrigues a dar um CEF para ela sentir na pele o tormento, a dor, o sacrifício po que passam os professores deste país.
Abaixo esta gente!
JVCMatias
JMatias,
O meu ''convite'' à Sra. Ministra da Educação MLR seria muito simples: ''Apareça um dia, disfarçada de professora de Inglês, para dar uma aula a uma das minhas turmas de CEF, fazendo de conta que me vem substituir, por eu estar doente...''
Ficaria ansiosamente à espera de saber o resultado...
Conseguiria ela manter os alunos disciplinados e motivá-los minimamente (ou ''obrigá-los''????) a trabalhar?
Ou, antes pelo contrário, seria permissiva (ou incapaz???) e eles fariam uma balbúrdia na aula?
Ora bem... Vejamos... No 2º caso, nada lhe aconteceria e (quem sabe???) ela regressaria feliz ao seu Ministério... Já no 1º, correria sério risco de, ao chegar ao seu carro, ver os pneus completamente vazios com golpes profundos feitos à facada...
Essa ''história'' não seria pura ficção... mas antes um testemunho real...
Isa
Na polémica CEF,s o grande problema é todos terem razão, professores e alunos. Tudo o que foi dito pelos professores que comentaram é real, não duvido. Tenho experiência de 2 anos de uma turma de 17 alunos de Electricistas e penso que a verdade ainda não foi toda relatada: ainda ninguém disse que estes alunos se sentem marginalizados,sentem que são as turmas dos "burros", sabem muito bem que é uma forma de "limpar" as turmas. São turmas de nível e isso já foi provado que não funciona em níveis de risco. Os programas são ambiciosos, não foram minimamente adaptados, os professores não foram preparados e nem sempre são apoiados.
Os CEF foram criados para resolver alguns problemas do sistema, nomeadamente o abandono escolar, mas não houve nenhuma preparação,um enquadramento pedagógico, social, organizacional de suporte. Resultar bem seria milagre!
Cara Ilda, denoto no seu comentário uma certa preocupação e sentimento de solidariedade para com estes alunos. Corroboro da sua opinião quando diz que não temos um sistema de ensino preparado para os receber. Enfim, não poderia haver neste blog comentário mais acertado que o seu. Bem haja!
Boa tarde!
Muito se tem generalizado neste blog acerca dos alunos dos CEF's. Sou familiar de um aluno deste tipo de curso, o qual foi escolhido na expectativa de ser um curso de teor mais prático, sendo que, como diz esse meu familiar, "não podemos ser todos médicos e engenheiros". Conheço minimamente o currículo do curso em que o meu familiar se encontra e concordo que é bastante mais complexo do que aquilo que seria de esperar. Não se tratando de um aluno brilhante, esse meu familiar é um estudante razoável e respeitador das regras de sala de aula, elogiado largamente pelos professores, não só ele como outros colegas da turma. É neste sentido que me entristece um pouco verificar a forma como se generaliza e se criam pré-conceitos em relação a estes alunos... Nem todos são relapsos, mal-educados, delinquentes, etc. Recordo-me do meu tempo de estudante, em que diziamos que os chamados cursos profissionais "eram para os burros". Infelizmente, esse preconceito foi-se impregnando e resiste até hoje. Acaba por ser desmotivador, para muitos destes alunos, perceberem que são considerados os alunos "mais burros da escola". Gostava, muito sinceramente que a sociedade e o sistema de ensino estivessem preparadas para receber e educar os jovens mais "problemáticos". Seria óptimo para o país ter mão de obra altamente qualificada em todas as áreas (é comum vermos o electricista que tem a antiga 4.ª classe, só para exemplificar), portanto seria óptimo que estes cursos constituissem uma verdadeira formação. No entanto, considero que estes cursos deveriam funcionar principalmente em escolas profissionais uma vez que estas têm já alguma tradição. Conheço algumas que são bastante exigentes com os alunos e que têm um teor altamente prático, o que é positivo. Tenho também algumas dúvidas de que as escolas do 2.º e 3.º ciclo e secundárias tenham boas condições, nomeadamente a nível de infra-estruturas, para receber estes cursos.
Para os CEFs, funcionarem minimamente nas Escolas Oficiais, é também necessário mudar a mentalidade de alguns professores, é preciso ter um espirito especial para ministrar estes cursos. Além de tentar despejar matérias à que saber criar uma certa empatia com os alunos, trata-se de turmas difíceis, com problemas disciplinares e a maioria alunos sem a mínima noção do que são regras, creio que alguns possivelmente nunca ouviram falar de tal palavra. São turmas constituídas por alunos com comportamentos difíceis e percursos escolares atribulados, antes estavam distribuídos por várias turmas hoje estão concentrados, criando problemas.
Para que toda a máquina funcione é preciso Professores motivados e com espirito CEF, o trabalho em equipa é fundamental e muitos Prof´s do ensino oficial não têm hábitos de trabalho em equipa. Alguns adaptam-se, mas muitos não conseguem alterar os seus métodos e hábitos de trabalho. Para vingarem estes cursos terá de haver uma alteração de mentalidades. Esperemos por melhores dias e reformas não feitas em cima do joelho