
Nunca se falou tanto em autonomia das escolas. Todos os dias se acrescenta um pouco mais de autonomia e se fazem projectos para mais e mais autonomia. Autonomia, autonomia, autonomia… A autonomia é consensual e irreversível. No entanto, nunca os professores foram tão alienados com o trabalho, tão explorados e tão automatizados como agora. Esta autonomia é uma autêntica perda… de tempo, de respeito, de dignidade, de dinheiro, de estatuto social e profissional. Desconcentração funcional sem recursos não é autonomia. Bem pelo contrário! Vamos espreitar um pouco toda a autonomia das escolas? Bora lá!
Com tanta, tanta e tanta autonomia que tem chovido sobre as escolas, os professores passaram a fazer uma resma de tarefas burocráticas e ocas — umas mais e outras menos —, sempre à custa da sua missão essencial: leccionar. Os professores começaram a produzir regulamentos atrás de regulamentos, projectos de tudo e de nada, estatísticas até dar com um pau, planos disto, daquilo e daqueloutro, relatórios, memorandos, lançamento de dados na Internet, aulas de substituição, sala de estudo, biblioteca, montes de reuniões de toda a espécie e rebéu béu pardais ao ninho. Os docentes têm, hoje, muito menos tempo para preparar as suas aulas e para corrigir os trabalhos dos alunos. No entanto, estão encostados à parede, sob ameaças diversas, a troco de muito mais sucesso, que deve resultar, não do seu investimento na planificação e execução da sua acção lectiva — os congelados didácticos podem fazer isso —, mas de toda a autonomia mencionada. As escolas podem acabar com os planos de recuperação e de acompanhamento? As escolas podem acabar com os projectos curriculares de turma? As escolas podem deixar de fazer as tarefas que considerem ser inúteis e um entrave ao desenvolvimento de toda a sua dinâmica educativa? As escolas podem pagar todo esse trabalho extra a quem o faz, à custa do seu tempo pessoal? Ou esta autonomia resulta apenas para o lado do Ministério da Educação, que mantém toda a gente entretida, ocupadinha de borla, enquanto trama a vida aos mestres deste país com cataratas de normativos? Vejamos só mais um exemplo. Com o novo regime de gestão das escolas, os directores passaram a ter poder disciplinar sobre os seus colegas. Agora, os processos são encaminhados para um professor, que vai pagar caro o seu estatuto na escola: vai continuar com todo o trabalho que já tinha, vai assumir uma responsabilidade muito grande, correr riscos, ganhar inimizades, substituindo um inspector, que tinha — e tem — formação específica e era bem pago para realizar essa missão. Desta forma, o Estado, à custa da autonomia, deixa de pagar por um determinado serviço, diminui as necessidades de pessoal na IGE e contenta-se com um trabalho que, embora honesto, é forçosamente menos rigoroso, mas muito mais económico: é de borla. E se o desgraçado cometer uma falha na tramitação processual… Toma lá, que é para aprenderes!
Autonomia? Sim, mas a verdadeira, a honesta, a transparente, a realmente autónoma, não este embuste que nos põe todos os dias a realizar tarefas cujo sentido nos escapa absolutamente e que nos humilha, nos subalterniza, nos explora. ESTA AUTONOMIA É UMA EXCELENTÍSSIMA PERDA!
Foto: João Alfaro, editor do blogue JoaoAlfaro, e Miguel Loureiro, colaborador habitual do ProfAvaliação, junto à estátua do Luís de Camões, em Constância, após almoço de amizade de comentadores e leitores do ProfAvaliação. O Luís Costa, poeta, romancista, professor e editor do DardoMeu, foi muito lembrado.